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Salazar- Uma Utopia regressiva

É uma utopia regressiva já que cria uma imagem idílica e falsa do passado. É instrumental para a extrema direita, mas também alimenta outros discursos políticos.

Marcante na história portuguesa do século XX, protagonista de um regime que sobreviveu 30 anos aos seus similares, Salazar é uma personagem que continua a marcar a vida portuguesa.

Antes da recente ascensão da extrema direita já se notava um certo revivalismo salazarista. Há uns anos a “eleição” como “melhor português de sempre”, o sucesso de séries como “Conta-me como foi”, de lojas como “Vida Portuguesa” ou as reedições dos livros de primária cheios de meninos em uniforme da Mocidade Portuguesa denotam um certo saudosismo em relação aos seus tempos. Em Santa Comba Dão tenta-se a criação do Museu Salazar. Nem todo este revivalismo tem um sinal político, muito dele até pelo contrário. A visão do regime em “Conta-me como foi” é realista e não se faz a sua apologia e seguramente que quem compra brinquedos de madeira ou lata na “Vida Portuguesa” quer mais recordar a infância dos seus pais ou a sua do que homenagear a ditadura então vigente.

O revivalismo passa também pela Igreja, Fátima, Futebol e Fados. Os últimos libertaram-se do estigma, o segundo acaba por ser um instrumento e também instrumentalizar a política do regime democrático, mas Fátima e a Igreja continuam. A Igreja continua saudosista em relação ao tempo em que conseguia instrumentalizar a educação, em que conseguia erigir monumentos que disfarçados de religiosos eram monumentos ao regime, como o Cristo-Rei. Mas a igreja não perdeu toda a sua influência, nas escolas continua a haver religião e moral católicas papas pelo estado, alguns padres julgam-se no direito de entrar nas escolas para evangelizar. Junto ao Cristo-Rei é recente uma estátua a Cerejeira.

No entanto há uma parte política neste revivalismo. Uma parte que tem a ver com as falhas, erros e incapacidades do regime democrático e que com mais ou menos ingenuidade vai sendo partilhada em redes sociais. É uma visão utópica de um regime passado, é utópica porque a sua ligação com a realidade do que foi aquele regime e, muito, mas muito ténue. É como se o Estado Novo tivesse sido a imagem que criou de si próprio, é como se Portugal fosse a famosa “Lição de Salazar” dos livros de escola. Mas esta utopia de Salazar e do Estado Novo também tem estado presente, de forma mais ou menos escondida em muitas das políticas e em alguns dos políticos post-25 de Abril.

Salazar e o seu regime seriam, segundo esta visão, austeros, honestos, modestos, desinteressados de valores materiais, puritanos e, sobretudo, superiores à politiquice. Vários políticos tentaram jogar esta cartada na política portuguesa depois do 25 de Abril. O primeiro foi Ramalho Eanes que veio repor a ordem a seguir ao PREC, tal como Salazar o tinha feito após a república. Apesar de não se chamar António, quem tentou mais a analogia com Salazar foi Cavaco Silva que “não sendo político” teve vinte anos nos mais altos lugares do Estado. Honestidade e desinteresse pessoal talvez não fossem as suas maiores qualidades, mas conseguiu dar essa impressão, pelo menos para o sector político que o apoiava. Mais algumas semelhanças com Salazar, alto e magro a acentuar o lado austero, da província (contra a elite de Lisboa) e devoto. Por o país na ordem, pelo menos as suas finanças depois ou durante uma crise financeira foi o papel atribuído a Pedro Passos Coelho. Não sendo, igualmente, António, continuou a viver em Massamá e a andar de Renault Clio. Ao contrário de Salazar e Cavaco não tinha um passado de professor universitário, aliás não tinha sequer um passado profissional, mas também era desinteressado em relação às politiquices, “que se lixem as eleições”. Que este desinteresse fosse difícil de explicar em quem toda a vida tinha vivido na política, ou daquilo que ia conseguindo por essa via, não era muito relevante para os seus apoiantes.

Mesmo na política de hoje podem-se encontrar os traços e o doce perfume da imagem de Salazar. Centeno e a obsessão por conseguir um superavit “o primeiro da democracia”. Aliás o ministro das finanças, não só pelo cargo ocupado, é o que mais se aproxima da figura austera de Salazar. Mesmo com uma imagem muito diferente e um sorriso algo perturbado, não deixa de ser o professor de finanças que põe as “contas em ordem”.

Mestre da propaganda, com uma mistura de nacionalismo, tradicionalismo (nem que para isso fosse preciso inventar tradições), catolicismo e conservadorismo, Salazar conseguiu que a sua imagem continuasse a ter seguidores, mesmo tendo o seu regime caído poucos anos depois da sua morte, sem apoios aparentes. Foram muitos anos de doutrinação. Hoje encontramos facilmente o discurso de “não havia corrupção”, “morreu pobre”, ou mesmo elogios ao desenvolvimento económico e às obras públicas. Não deixa de ser um discurso estranho quando se sabe que o Estado Novo, ao contrário do Fascismo Italiano e do Nazismo não era um regime virado para o desenvolvimento, mas sim para a manutenção de um país rural, isolado, no qual se pudessem manter as estruturas tradicionais. Isto só muda nos anos 60, em que há algum crescimento industrial e expansão de alguns sectores, como a educação.

Essencial para a manutenção da utopia é o esquecer aspetos como a repressão política, que às vezes tinha dimensões disparatadas e pouco políticas, a pobreza da maioria da população, o subdesenvolvimento de grande parte do território. Esquecer sobretudo a guerra e o facto de, como acontece em muitas guerras, tenho começado com “Angola é nossa” e terminado na queda do regime, por se ter tornado insuportável. É uma utopia feita de memória seletiva e de mentira. Alimenta-se do que falhou no regime democrático, do discurso anticorrupção (como se o Estado Novo não fosse fortemente corrupto), da crise económica e de soluções que não protegem a maioria da população.

É uma utopia regressiva já que cria uma imagem idílica e falsa do passado. É instrumental para a extrema direita, mas também alimenta outros discursos políticos. A dificuldade para o combater está na seletividade natural da memória, mas mostra a importância da História e de instrumentos para a sua divulgação, mas também a de compreender o significado político de algumas tradições e comportamentos.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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