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Sagrada família

Nos "packs" de férias de resort para destinos grupais, há muito que "pensão completa" passou a "tudo incluído".

A armadilha não podia ser mais sedutora apesar de não poucas vezes incluir bebidas contrafeitas e pagamentos extra para vícios oficiais. É um negócio de famílias. Nada de anormal. Mas na política portuguesa, a alucinação é paga com os impostos de todos nós e não vai lá com vouchers ou pulseirinhas laranjas. A "Sagrada Família" catalã foi financiada exclusivamente por contribuições privadas mas esta esmola bem portuguesa não pode morrer solteira. A solidão que o PSD ontem enfrentou no debate parlamentar diz bem sobre o seu desejo compulsivo sobre os casos das redes familiares no Governo. A demagogia do "tudo incluído" foi a nova coqueluche das minas e armadilhas do PSD.

A colagem de Cavaco Silva ao assunto, à boleia do jogo de pingue-pongue-au-ralenti que mantém com Marcelo Rebelo de Sousa, acabou por esvaziar o argumento da sagrada família. O PSD bem pretendia que fosse um "family-affair" a declarar o fim das suas férias políticas. Mas nem assim. Tentaram ligar os motores para as eleições europeias mas percebe-se que só arrancam à custa da propalada fraqueza do seu adversário mais directo. E não foi por falta de ligações directas. É por isso que o PSD continua de férias, sem entender a retoma económica do país, agitando um prospecto veraneante na mão onde cintila esperançoso o rosto de Pedro Marques. Toda a fé de um partido, aqui jaz, depositada na promoção de um adversário.

Governar-se em família, eis a questão. António Costa admite o constrangimento ao assinalar que gostaria de ter "um critério claro e uniforme", definido pela Comissão de Transparência, também com aplicação aos governos regionais e municipais. Uma quota-parte de incómodo. Convenhamos que o debate à volta de laços familiares não é comparável ao debate sobre as quotas. Se admitimos as quotas para corrigir casos de enormes assimetrias e disparidades, as questões de família em casos governamentais só se podem dirimir com bom senso e, quando muito, com meia dúzia de critérios disparatados. Sobre estas matérias, será soberano o julgamento político em democracia.

Mais do que sobre os laços de família, o que deveria animar um bom debate entre PS e PSD são os laços insustentáveis entre política e negócios, portas giratórias onde tudo cabe e se reveza, onde advogados com assento parlamentar são legisladores e, simultaneamente, partes a jogar todos os seus interesses. Aqui, já não há disponibilidade para a sagrada família discutir os seus podres. É conveniente falar baixinho sobre tudo o que sempre promoveram e pretendem eternizar.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 5 de abril de 2019

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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