À luz da política de austeridade, optou-se por cortar onde o financiamento sempre foi escasso, onde o poder do Estado sempre esteve mais ausente. Foi isso que nos disse o Decreto Lei 70/2010, dando a entender que cada subsidiário seria um potencial free rider, que tinha chegado o tempo para se cortar e pôr fim a esse regabofe dos subsídio-dependentes. E cortou-se, assistimos a uma verdadeira desflorestação dos apoios sociais, entregando-se os mais frágeis da sociedade portuguesa a um insuportável deserto de sacrifícios.
As tácticas legislativas e retóricas foram várias, desde anedotas como a capitação à demagogia da inveja social e da ideologia do sacrifício.
No entanto, não se tocou naqueles que sempre fizeram do erário público o paraíso da sua acumulação. Os bancos e os grandes empresários portugueses, podem ter sentido uma leve brisa, mas não foram minimamente tocados pela tempestade social e económica que se vive em Portugal. Porquê? Porque é que não se taxam as mais-valias bolsistas? Porque pagam os bancos ridiculamente pouco de IRC? Porque não pagam as grandes fortunas impostas?
As respostas são várias, começam na Comissão de Honra de Cavaco Silva, estendem-se pelo seu passado e desaguam hoje na Justiça. Por outro lado, são conhecidos os conluios entre banqueiros, grandes empresários e o poder político governante.
Todo o poder económico em Portugal tem o direito de se gabar que desde as suas rotinas gastronómicas até ao seu Conselho de Administração há fortes laços com os decisores políticos nacionais.
É por isso que só um lado, maioritário mas mais fraco, pagará esta crise. Sabemos bem que não somos todos iguais...