Rita, põe-te em guarda

porLuís Monteiro

15 de março 2026 - 17:14
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O afastamento da Rita Rato da direção do Museu do Aljube não é um ato isolado, nem está apenas em linha com o que também se passou no Teatro do Bairro Alto. Ele deve ser entendido como um movimento mais lato de silenciamento do dissenso, de aniquilamento, principalmente, dos espaços de pensamento da esquerda.

Soubemos ontem que a EGEAC, empresa municipal da Cultura da CM Lisboa, decidiu "dispensar" Rita Rato da direção do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade. Trata-se obviamente de um afastamento por razões políticas, enquadrado na atuação que o avanço do Fascismo tem promovido. Em nome da "liberdade de expressão", da "pluralidade de ideias", contra a "ditadura socialista", higieniza-se o ambiente cultural, social e político e silencia-se qualquer agente que não esteja disponível para alinhar com o status quo (sim, o status quo é a extrema-direita e a direita extremada).

A Rita Rato entrou para a direção do Museu do Aljube envolta em críticas. Na altura, tinha-se escolhido uma licenciada em Ciência Política e Relacionais Internacionais, em detrimento de um conjunto alargado de outros candidatos com CV extensos nas áreas da História Contemporânea e da Museologia. Afastando a priori os ataques anti-comunistas de que a vencedora foi alvo, podemos admitir que existiram argumentos razoáveis dos dois lados - os que defenderam que a experiência e a candidatura da Rita Rato mereciam essa confiança e os que entenderam que era necessários valorizar questões técnico-científicas que estariam salvaguardadas apenas com um perfil com pergaminhos nas áreas dos museus e da gestão do património cultural.

Mas a prática é o critério da verdade. O Museu do Aljube é, hoje, um dos museus mais visitados do país, aquele que mantém uma programação regular mais rica, com visitas escolares todas as semanas (às vezes, todos os dias da semana, mais do que uma por dia). Acrescento a isso uma matéria que me parece especialmente importante. Existiu, até à esquerda, quem entendesse a escolha da Rita para este cargo como uma espécie de cooptação deste equipamento por parte do partido a que pertence. A Rita provou saber distinguir muito bem as suas convicções pessoais do cargo para o qual foi escolhida. A presença do espaço comunista é inevitável num lugar de memória da resistência à ditadura como é o Museu do Aljube. Mas nem por isso o plano que foi levado a cabo se apresentou sectário, antes pelo contrário. O Museu abriu-se a gente muito diferente, acima de tudo a novas gerações de investigadores, ativistas, estudantes que construíram ali o que continua a faltar, tantas vezes, às forças democráticas e progressistas - pontes e entendimentos, apesar das diferenças.

Já conhecia a Rita Rato do Parlamento, onde partilhámos algumas comissões e assentos próximos no hemiciclo. Mas comecei a poder trabalhar com ela e, com isso, conhecê-la melhor durante a sua passagem pelo Museu do Aljube. Tem uma equipa pequena, muito menor do que aquela que o museu merece, mas durante estes anos desdobrou-se para não falhar a nada, percebendo que este equipamento cumpre um papel nas políticas públicas da memória central, dado que Peniche, apesar de inaugurado, tem um défice de pessoal e está a dar os primeiros passos, e o Porto não tem sequer um museu dedicado à temática (luta que mantemos viva e que a Rita sempre apoiou!).

O afastamento da Rita Rato da direção do Museu do Aljube não é um ato isolado, nem está apenas em linha com o que também se passou no Teatro do Bairro Alto. Ele deve ser entendido como um movimento mais lato de silenciamento do dissenso, de aniquilamento, principalmente, dos espaços de pensamento da esquerda. É a caça aos esquerdistas dos anos '20 e '30 do século XX, com um discurso atualizado para o século XXI. Mas as similitudes estão todas cá, inclusive a capitulação da dita "direita moderada" à agenda fascista.

Por fim, envio um abraço de solidariedade à Rita, com a certeza que nos vamos encontrar em tantas lutas - as da Memória e as do Futuro.

Luís Monteiro
Sobre o/a autor(a)

Luís Monteiro

Museólogo. Investigador no Centro de Estudos Transdisciplinares “Cultura, Espaço e Memória”, Universidade do Porto
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