Na América Latina, a ideia do buen vivir - inspirada na expressão quéchua “Sumak Kawsay” que se pode traduzir para “vida plena” - serve de inspiração, mote e até programa político a vários governos e movimentos progressistas e ambientalistas. Este conceito, traça como horizonte da luta política a construção de uma sociedade que, para além dos programas mínimos de direitos sociais, garanta a todas as pessoas a possibilidade da fruição intelectual, espiritual e cultural plena. A radicalidade deste conceito, tão transversal a todos os projetos criativos de transformação revolucionária da sociedade, é a da recuperação da ideia de felicidade para o campo das reivindicações emancipatórias.
Este mês iremos celebrar os quarenta e nove anos da nossa Revolução, aproximando-nos do emblemático meio século de Democracia. Ouvimos e lemos frequentemente quem nos relembra - e bem - das conquistas mais marcantes desse fulgurante período revolucionário: Salário Mínimo Nacional, Escola Pública, Serviço Nacional de Saúde ou liberdade de expressão, associação, manifestação. Talvez o elemento mais revolucionário de toda esta transformação social que ocorreu nos anos entre 1974 e 1976, seja a ideia de que a conquista dos direitos sociais e políticos não representam o fim da emancipação política, mas a base na qual ela se constrói. Como tantas outras revoluções que abalaram o mundo no século passado, o nosso Abril de 1974 sonhou com uma sociedade em que, abolidos sistemas de dominação e exploração, as pessoas pudessem fruir cultural e intelectualmente, viver vidas dignas e plenas, ao invés de condenar gerações de pais, filhos e netos a trabalhar de sol a sol, até morrer.
A ideia radical e emancipatória de que o propósito da luta política reside na possibilidade de todas as pessoas terem uma vida boa, quebrando com cadeias de exploração e devolvendo uma ideia de futuro, é transversal a tantos projetos de transformação social. De várias formas e em diferentes épocas, revolucionários por todo o mundo quiseram construir sociedades que, rompendo com os grilhões do capitalismo e da sua sobrevivência baseada na exploração cada vez mais selvagem, dessem a todas as pessoas a possibilidade de serem felizes, de viverem a plenitude das suas existências, de terem horas de lazer e de descanso e, no fundo, de viver uma vida boa. Em 1917, aqueles e aquelas que construíram a Revolução, sabiam que criar uma sociedade nova depois do capitalismo significava o fim da sujeição a regras morais e sociais que quartavam a felicidade e a plenitude e a criação de um mundo no qual a dominação de classe não impusesse mais a reprodução eterna da miséria e infelicidade da maioria das pessoas. Quiseram construir um mundo no qual os operários tivessem tempo para estar com as suas famílias, para ir ao teatro e de férias, para viver uma vida além do trabalho. É esse o propósito último da transformação socialista. Souberam-no revolucionários russos, cubanos, portugueses, franceses, movimentos de libertação nacional e indígenas. Colocaram a ideia de felicidade como horizonte de transformação social pós-capitalista de diferentes formas. Mas, no cerne, surge hoje a ideia de direito à felicidade e à plenitude na vida como a mais radical de todas as propostas que ficaram por cumprir.
Em 2023, a proposta de uma vida boa mantém a sua radicalidade nos horizontes de expetativa que contemplamos. Num mundo de relações laborais desreguladas — reproduzindo desigualdades que ecoam o fim do século XIX e a brutalidade do capitalismo industrial —, de um tempo que não desemboca num futuro auspicioso mas que, pelo contrário, estagna num presente de crises, inflação, desastre climático e pobreza, a vida boa é a reivindicação central, de fundo, mais urgente de todas. A ideia de vida boa, necessariamente anticapitalista porque, no seu âmago, contém o fim da exploração do homem pelo homem como ponto de partida para uma nova sociedade, representa a dignidade no trabalho, o direito ao lazer, à cultura, à fruição e ao prazer, o romper com a lógica de crescimento e produção infinita que destroem o planeta e empurram gerações para a precariedade, o esgotamento mental e a miséria. Aproximando-nos do meio século da nossa Revolução, recuperemos para o campo das nossas lutas esse entusiasmo e otimismo (do intelecto e da vontade) pela criação de um novo mundo de felicidade e plenitude que, apesar de obnubilado pelas tão esmagadoras dificuldades do presente, é nosso dever coletivo construir.
Artigo publicado em gerador.eu a 20 de abril de 2023