Um pouco por todo o mundo, nas últimas décadas, apesar da grande debilidade ideológica da esquerda no seu conjunto, assistiu-se a uma agitação e a sucessivas vagas de protestos populares. Dos Indignados contra a elite dirigente e as burlas na banca do Estado Espanhol em 2011, ao movimento Occupy Wall Street em protesto contra a alta finança dos Estados Unidos em 2012, passando pela Primavera Árabe, que a partir de 2010 sacudiu grande parte dos países do Médio Oriente em confronto com a autocracia, a pobreza, o desemprego e a corrupção, milhões de seres humanos mobilizaram-se de forma contundente.
Porém, a natureza espontânea dessas mobilizações rapidamente se esfumou e alguns ajustamentos de pormenor foram suficientes para repor a normalidade nos sistemas políticos, enquanto o refluxo se apoderou do estado de espírito dos contestatários. Mais recentemente, em 2018, o movimento dos Coletes Amarelos fez a sua aparição em todo o território francês contra as desigualdades e o custo de vida, mobilizando setores discriminados das zonas rurais e das periferias das grandes cidades. Mais uma vez milhões de manifestantes tomaram todo o protagonismo mediático com os seus protestos, repetidamente reprimidos pelas forças de segurança. Em 2019, um aumento das tarifas dos transportes públicos decretado pelo governo chileno desencadeou uma onda de insatisfação traduzida em manifestações com mais de um milhão de participantes, um número inédito naquele país desde o derrube sangrento do governo de Salvador Allende em 1973.
Mais recentemente, o jovem Nahel Merzouk de 17 anos e de ascendência argelina e marroquina foi abatido a tiro em Paris por um agente da polícia após perseguição a uma viatura que conduzia a alta velocidade e sem documentos. Seguiram-se grandes mobilizações e confrontações de rua com a polícia em toda a França, acompanhadas de pilhagens e motins generalizados, bem como de ataques a símbolos do Estado, como Câmaras Municipais, escolas, bibliotecas ou esquadras de polícia. A intensidade da violência e o grau de destruição associados a estes acontecimentos são sinais evidentes de um profundo mal-estar latente na sociedade francesa, que se exprime periodicamente em episódios deste tipo, como uma espécie de válvula de escape da tensão encoberta pela rotina do dia-a-dia. Porém, passada a fase mais aguda e mediatizada dos protestos, poucas serão as consequências políticas para além do reforço e do endurecimento das medidas securitárias e das forças de segurança.
Pode dizer-se que, apesar do apodrecimento e da crise do capitalismo serem muito evidentes por todo o mundo, as multidões enfurecidas não transportam consigo um projeto articulado transformador de futuro e a maioria delas até evita identificar-se com a direita ou com a esquerda. Assemelham-se às revoltas camponesas pré-modernas, dos tempos em que o proletariado era pouco numeroso ou mesmo inexistente. Estas eram revoltas espontâneas contra a opressão, contra injustiças e violações de tradições populares, contra os impostos, mas desprovidas de visão de futuro ou de perspetivas de longo prazo, mobilizando multidões de humildes e deserdados à procura de melhor sorte. A grande diferença, comparando com o que acontece nos dias de hoje, é que muitos dos que alimentam agora as multidões enraivecidas são excluídos do mercado de trabalho formal que concluíram a escolaridade obrigatória ou frequentaram mesmo níveis superiores de ensino.
É verdade que estamos a falar de experiências muito diversas um pouco por todo o mundo e a generalização é sempre um exercício arriscado, mas há um traço mais ou menos comum que se exprime na falta de conexão dos protestos com qualquer projeto político e na distanciação em relação aos partidos políticos existentes, nomeadamente os de esquerda, qualquer que seja a sua orientação, tradicional ou radical. Há um ressentimento profundo que faz com que a esquerda não seja capaz de aproveitar o descontentamento que se manifesta frequentemente à superfície das nossas sociedades, mesmo quando se conseguem identificar as suas causas. A progressão da extrema-direita não é apenas o resultado das fraturas sociais provocadas pelas políticas neoliberais dos governos social-democratas ou conservadores de direita, ela é também a expressão da perda de persuasão da esquerda e da perda da mística que o seu projeto de transformação social transportava, abalado pelos acontecimentos dos finais da década de oitenta.
Deste ponto de vista, o último suspiro da esquerda desenrolou-se em torno da governação do Syrisa, na Grécia, a partir de 2012. Embalado pelo sucesso eleitoral, pela capacidade para atrair largas massas de apoiantes tradicionais do PASOK (o partido socialista grego) e pela articulação com diferentes movimentos no terreno da luta social, Tsypras ganhou as legislativas em 2015 e ensaiou um confronto com a Comissão Europeia em torno das regras do euro e das políticas de austeridade. O desfecho é conhecido. O governo do Syrisa acabou humilhado pelas autoridades comunitárias, aceitando termos explícitos da política de austeridade e o declínio do partido não parou de se acentuar. Daí para cá salva-se a experiência da Geringonça em Portugal e, numa outra medida, o governo do PSOE com a Unidas Podemos no Estado Espanhol. A Geringonça ganhou uma base popular em torno de medidas de um programa de emergência e reversão de políticas da Troika, o governo de Pedro Sanchez pisou um caminho idêntico. Mas, ambos, cada um à sua maneira, acabam por revelar a dificuldade de sustentação de uma política mais consequente de esquerda no atual quadro institucional e na presente conjuntura.
Nos dias de hoje, as poucas vitórias da esquerda celebram-se nas derrotas da extrema-direita, potencial aliada da direita tradicional no seu assalto ao poder, como acaba de acontecer nas eleições legislativas do Estado Espanhol, apesar da vitória do PP (o que não é coisa pouca). Assim se compreende a escolha dos atuais indignados a favor de revoltas inconsequentes ou ocas. É um sinal dos tempos. E é também uma reação à crise ideológica que é preciso ultrapassar.
Artigo publicado em “Raio de Luz” em julho de 2023