A revolta dos descamisados e a virtude do capitão Renault

porFrancisco Louçã

13 de fevereiro 2021 - 16:30
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A Bolsa é sempre um jogo de soma nula, o que uns ganham é o que outros perdem, e ela não pode ser vencida no seu próprio terreno.

Lembra-se da deliciosa cena em que o capitão Louis Renault dirige uma busca no Rick’s Café Américain, no “Casablanca”, e se declara “chocado por saber que se joga naquelas salas” e embolsa a sua comissão? O que se vive nas bolsas norte-americanas é algo que lembraria o episódio do filme, se houvesse uma invasão do bar por crianças de rua que pilhassem o envelope do capitão. Ou, pelo menos, é assim que algum romantismo jornalístico nos conta a história. Talvez seja mais complicado.

Xeque ao poder financeiro

Tudo começou com uma operação banal em Wall Street. Dois fundos financeiros, especializados nestas operações, desencadearam uma manobra para provocar a falência de algumas empresas fragilizadas pela crise, entre as quais a GameStop, que vende e troca jogos de computador, e a BlackBerry, que já teve a sua época de ouro nos telemóveis. O procedimento é brutal: os fundos pedem emprestadas ações dessas empresas, prometendo pagar uma pequena comissão quando as devolverem uns escassos dias depois, e vendem imediatamente as ações que não são suas, para assim provocarem uma perturbação no mercado com a rápida baixa do seu preço e uma corrida às vendas. Se tal acontecer, comprarão então as ações por um preço mais barato e devolvê-las-ão aos proprietários, que foram enganados, e embolsarão o lucro, com a mesma displicência do capitão Renault. Chama-se a isto tomar uma posição curta numa operação a descoberto. Confesse que nunca teria pensado num estratagema tão curioso.

Parecia tudo bem ensaiado. A GameStop está em dificuldades, gere cinco mil lojas num negócio que se deslocou para o online, está tão condenada como o aluguer de cassetes de vídeo de há uns anos. De 2015 a 2020, as suas ações caíram 85% e acumulou prejuízos nos últimos dois anos. Mas, ao saber-se do raide dos fundos financeiros, criou-se uma onda de aplicações por pequenos investidores que fez disparar o preço das ações: a 12 de janeiro estavam a 20 dólares, a empresa foi entretanto condenada ao cadafalso por Wall Street, e de repente milhões de pessoas começaram a comprar ações, que na quinta-feira passada dispararam para 483 dólares. É a “Revolução Francesa nas finanças”, assustou-se um editorial do vetusto “Financial Times”, os descamisados entraram pelas Tulherias, os pés-descalços invadiram o Café Américain em Casablanca, é David contra Golias.

Wall Street em apuros

O resultado imediato foi devastador. O principal fundo envolvido no saque à empresa, Melvin Capital, que declarara na semana passada que a sua vítima estava em “declínio terminal”, perdeu 3,75 mil milhões de dólares na operação e teve de ser socorrido por rivais para evitar a sua própria falência. Os pequenos acionistas cantaram vitória, para muitos tratava-se de infligir perdas a um gigante financeiro e de mostrar que, havendo muita gente conjugada, o poder de Wall Street pode ser abatido, mesmo com perdas pessoais para muitos desses investidores. O entusiasmo da subida inicial do preço das ações atraiu entretanto outras poupanças, e os que geriram bem as suas apostas ganharam um bilhete de lotaria, se venderam ainda durante a subida. No entanto, a valorização não durará. Na sexta-feira passada, as ações desceram para 325 dólares, na segunda-feira ficaram em 225 e na terça-feira em 90. Vão descambar.

Para quem se surpreenda com estes valores, é bom lembrar que o rácio entre o valor destas ações e as vendas da empresa era tão especulativo como o da celebrada Amazon, mas, neste caso, ninguém aposta na sua queda e, portanto, a empresa pode continuar a atrair capitais, que esperam uma valorização segura ao longo do tempo. Então, o triunfo ou a morte de uma empresa no mercado financeiro só depende do jogo das expectativas, é “o resultado das atividades de um casino”, explicava John Maynard Keynes em 1936. Convenha-se que a comparação com a ciência de um casino é algo depreciativa, mas indica o risco deste mundo abissal.

Trata-se de poder, nem mais. Ao longo dos últimos 20 anos, as operações de entrada em Bolsa renderam 657 mil milhões de dólares nos Estados Unidos. As empresas do índice S&P 500 usaram dez vezes mais, 8,3 biliões de dólares, para comprarem as suas próprias ações e fazerem subir o seu preço e, de caminho, melhorarem os prémios dos seus administradores. De facto, nada de diferente da multidão de protestários que comprou ações da GameStop para aumentarem artificialmente o seu valor, mas fizeram-no respeitosamente dentro do consenso da casta financeira.

A reforma que nunca virá

Assim sendo, deste episódio pouco sobrará. A Bolsa é sempre um jogo de soma nula, o que uns ganham é o que outros perdem, e ela não pode ser vencida no seu próprio terreno. A GameStop desaparecerá, e muitas destas poupanças aventurosas passarão para as carteiras dos manobradores mais oportunos. Só ficou o aviso: a Bolsa mostrou-se como o que é, um jogo de especulação. E de poder concentrado, dado que os 10% mais ricos nos EUA têm 84% do total das ações. É tudo deles. Por isso, afirmar que a Bolsa contribui para uma afetação racional dos capitais é uma falácia, como se verificou nesta história. O jogo financeiro é uma avenida de enriquecimento para quem tem poder.

Está escrito, as propostas que procuram racionalizar este mercado contra bolhas explosivas, como uma taxa de 0,1% sobre as transações, para reduzir a alta frequência, ou, como propunha Buffett, uma taxa de 30% de IRS sobre quem tem lucro de mais de um milhão em operações bolsistas, tudo isso ficará em vãs promessas. O capitão Renault continuará a receber o seu envelope.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 5 de fevereiro de 2021

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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