Ressaca eleitoral

porAlice Brito

14 de junho 2011 - 10:35
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O espaço de tempo que agora vivemos constitui-se como um espaço de confluência de todos os sonhos da direita; da direita direitosa e da direita com voz de galo que andou aos bonés e finalmente pisou chão mais ou menos firme.

A Europa anda agora aos papéis. Ele é pacto, memorando, contrato, acordo, ajuste de contas, negociação, renegociação. Atordoados, os países devedores marcam passo, marchando imóveis. Pagam, tornam a pagar e vão eternizando o seu estatuto de devedores. A troika anda agora armada de pistolas que ameaça disparar ao mais pequeno e breve som de incumprimento dos pactos leoninos que coagiu os mais estouvados e dóceis a assinar. Gangs de gravata, treinados no assobio afinado de todas as canções do bandido, entoam serenatas à dívida que lhes vai subvencionar a boa vida. Jogam aí a sua conservação, a sua pele, o seu modus vivendi.

Dos lábios finos saem agora lábias de advertência violenta. Os media, através da guincharia dos seus auxiliares económicos, uma espécie de contínuos que trazem e levam recados, avisos e recomendações, vão fazendo o seu trabalho.

Cada dia que passa há novas algazarras com números, índices e gráficos.

Todos os dias despejam sobre nós relatórios cheios de recriminações, sanções, exortações, alvitres. Cada dia que passa. As governações cúmplices assinam por baixo. Quando as obrigam, também põem no papel o dedo manchado, como os analfabetos, aí deixando uma impressão digital que fica inscrita a certificar a autoria da vassalagem.

Já ninguém se lembra da crise financeira, sistémica e global que aquela corja consentiu, perpetrou e amamentou. Já ninguém se lembra da Banca de rastos, prostrada aos pés dos Estados. Já ninguém se lembra dos desvarios dos investimentos bolsistas, das acções inchadas de vento, da ruína desta finança que arrastava o esqueleto minguado depois de roída a carne toda. Por esses tempos, depois da indigestão com detritos banqueiros, o capitalismo neoliberal, pálido e combalido, parecia decadente, pedia esmolas e compaixão. Rapidamente dois ou três culpados foram encontrados para a crucificação, habilmente utilizada para salvar a pele do resto da matulagem. Lestos e hipócritas levaram-nos a tribunal para condenações.

A malandragem remanescente assistiu sentadinha na plateia e esperou, candidamente, que o tempo e a rápida desmemória, a que necessariamente acresceu a cumplicidade passiva e activa da acção governamental, lhes facilitassem a viagem de regresso.

Às agências financeiras, que tinham assegurado o bom-nome e a solvência dos dejectos monetários, das acções e títulos que titulavam coisa nenhuma, ninguém lançou uma só pedra, um calhau, uma censura, um reparo.

Tomaram novamente posse na secretaria mundial da extorsão, com pompa e circunstância. Auto instituíram-se em júris planetários da economia mais trapaceira e burlona de que há memória, concretizando assaltos sucessivos, continuando na desregulação infame da falta de norma. As normas vão-se fazendo ao sabor da maré. As normas, somos nós. É o que dizem, é o que pensam e é, sobretudo, o que fazem.

Órfãos de soberania, os governos eleitos, não se sabe bem para quê, são os manajeiros de quem manda. São os capatazes deste país assegurando o volume da colheita. Tremem que nem varas verdes, quando os da troika lhes abrem os olhos.

Alguns enchem o peito de ar e afirmam, decididos, determinados e convictos que hão-de tomar medidas ainda mais duras que as da própria troika. Foram eleitos.

Propõem-se normalizar o anormal, chiam sobre a necessidade do abuso, querem naturalizar a incivilidade.

Tudo com gravata. As mulheres, poucas, também usam gravata. Deixaram de se usar punhos de renda. Estes, os punhos de renda, pertencem a outra dimensão do discurso. Uma dimensão que já está gasta. Agora é à bruta. Com gravata, porém. Para se darem ao respeito. São urbanos e crus, ostentando, todavia, os traços de grosseria dos aristocratas rústicos e boçais, terratenentes de territórios sem limites, que administram justiça e cunham moeda.

A troika aproveita a luz portuguesa para os interrogatórios financeiros e policiais. A luz vai cegando, à medida que o destino luso fica cada vez mais embatucado.

Os partidos vencedores quantificam agora a proa e a legitimidade da arrogância. Ontem, eram simpáticos, tentavam a empatia com o povo, com a massa ignorante do futuro que agora confeccionam. Acariciavam o discurso.

O pessoal, a multidão, deixava-se atravessar pelas palavras proferidas com firmeza, com ritmo, com convicção, os chavões a reproduzirem-se como ervas más, de má índole. O público eleitoral português não atinou no sentido das discursatas. Não percebeu que quando o mandavam premir o gatilho do voto, a arma estava direccionada para o pé. Ou então não quis perceber. Só percebeu, como os bichos domésticos, o compasso, o tom, o som oco das palavras ditas.

Entre discursos, aclamações e televisões, a inteligência votante ficou em pousio. As figuras e os figurões que foram aparecendo apelaram à greve dos neurónios. Os que agora foram eleitos tinham sorrisos castos, comoviam-se, tão ternos que eram, com o país a necessitar da sua ajuda como pão para a boca. O sorriso amável e afectuoso deu agora lugar ao júbilo felino da hiena, e ao apetite do chacal.

Formadores certificados do caos atracam agora para o cais do governo que há-de ser.

Pertencem todos ao mesmo culto, com as mesmas homilias, e passam a vida a entoar cânticos fervorosos à nova economia que agora vai deixar de se pressentir, para se começar a sentir. Na pele.

O espaço de tempo que agora vivemos constitui-se como um espaço de confluência de todos os sonhos da direita; da direita direitosa e da direita com voz de galo que andou aos bonés e finalmente pisou chão mais ou menos firme. As direitas, estas direitas têm uma maioria, um presidente, e um tempo propício à pilhagem e aos sacrifícios. Saiu-lhes a sorte grande. A taluda. De cada vez que há contestação sacam do défice, dos poemas da troika, dos discursos ininteligíveis e encriptados da presidencial criatura e aí vai disto: atacam.

Há tanto tempo à espera que quase não acreditam. Finalmente o poder. Todo. Todinho.

A confluência de todos os sonhos. Já não olham, melancólicos e invejosos para os ministérios. Quer dizer, agora a inveja é outra. É lá entre eles. O que queria ser ministro e não foi ministro; o que queria aquele cargo que foi entregue a outro; aquele que sonhava com uma pasta e ficou feito pastel com uma pastinha; enfim, aquele ou aquela que toda a gente sabe que é completamente incompetente, e que, afinal, passou à frente. Mas essa é uma guerra que não é nossa. É lá entre eles, entre os que habitam na periferia das nossas vidas, no governo cuja existência nós pagamos, como se fosse um amante caro, cheio de vícios, um cobrador que come à mesa connosco sem ser convidado e que tira da travessa o melhor bocado com a acrimónia da grosseria rude.

A taluda. Saiu-lhes a taluda.

Sequestrados no convento de todos os défices, das dívidas, das auto-estradas e das parcerias, acorrentados ao medo das bancarrotas, esquecemos o essencial. Descuramos a força que temos, não estamos atentos à outra Europa que há-de falar e nem pensamos na roda da história que pode rolar a nosso favor. O vento não sopra sempre do mesmo lado. Quem semeia ventos recolhe tempestades.

Alice Brito
Sobre o/a autor(a)

Alice Brito

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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