A resposta coletiva ao conservadorismo

porBeatriz Realinho

23 de agosto 2024 - 17:10
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A organização de extrema-direita Habeas Corpus ameaça de intimidação a Marcha do Orgulho de Castelo Branco. Não se pode deixar que grupos com uma agenda de ódio ameacem estes espaços. Nesse dia, estamos mobilizadas e saímos à rua na luta contra o conservadorismo.

De onde vimos e para onde vamos enquanto movimento LGBTQI+? A memória das nossas lutas encontra-se viva quando hoje vemos as marchas a multiplicarem-se pelo território, assim como em número de participantes. Somos herdeiras da Revolta de Stonewall que nos trouxe a resposta coletiva à opressão, trazendo as nossas lutas para o espaço público e político. A experiência coletiva ultrapassou a individual, assumindo as nossas identidades de resistência e de luta com orgulho.

E para onde vamos? É o orgulho que combate a onda de conservadorismo e ódio que se faz sentir, que coloca uma agenda anti-direitos LGBTQI+ como prioridade, fazendo esta parte da ação da extrema-direita na Europa e no mundo. Apesar da Constituição da República Portuguesa e da legislação em vigor, Portugal não é exceção à violência e opressão praticada por grupos extremistas que colocam em causa a garantia dos nossos direitos.

Desde o ano passado que temos assistido a episódios de ódio, violência e ameaças homofóbicas e transfóbicas por parte da organização extremista Habeas Corpus, não sendo nenhum destes episódios casos isolados. Este movimento, fundado pelo antigo juiz Rui da Fonseca e Castro, tem vindo a promover ataques e invasões intimidatórios em diversas ações que promovem os direitos LGBTQI+, por todo o país. Em setembro de 2023 invadiram a apresentação do livro No Meu Bairro, de Lúcia Vicente, que se realizava na Fundação José Saramago. Após o mesmo seguiram-se outros momentos de intimidação a iniciativas LGBTQI+ em Leiria, Cabeceiras de Basto, assim como em outras apresentações de livros. Foi o caso de em junho deste ano, com a apresentação do livro da autora Mariana Jones, no Porto, tendo sido necessária a intervenção da GNR para retirar os membros do grupo neonazi do local. A autora tem sido alvo, ao longo dos últimos meses, de mensagens de ódio, pelo livro O Pedro gosta do Afonso. No início do mês de agosto três elementos do grupo interromperam a apresentação do livro Mamã, quero ser um Menino!, de Ana Rita Almeida, em Idanha-a-Nova.

Após estes ataques presenciais, a Habeas Corpus lança nas suas redes sociais uma “Lista de terroristas LGBTQI+”, com o nome e fotografias de ativistas, escritores, professores, psicólogos, políticos que defendem e lutam pelos direitos LGBTQI+. A Habeas Corpus é uma organização que promove e legitima o discurso de ódio e a perseguição contra pessoas LGBTQI+, mulheres, migrantes. É urgente uma tomada de posição por parte do governo que proceda ao desmantelamento de grupos de extrema-direita que são violentos e criminosos.

A última publicação da organização incentiva à ameaça de intimidação da Marcha do Orgulho de Castelo Branco que acontece, pela primeira vez, a 14 de setembro. As Marchas organizadas por todo o território são encontros de luta pela liberdade e contra a homofobia e transfobia, pautadas por reivindicações políticas importantes e ocupação do espaço público. Não se pode deixar que grupos com uma agenda de ódio ameacem estes espaços.

É o orgulho que mobiliza milhares, todos os anos, nas diversas marchas e iniciativas LGBTQI+ pelo país, por uma sociedade mais igual, justa e solidária. Dia 14 de setembro, tal como em todos os outros dias, estamos mobilizadas e saímos à rua na luta contra o conservadorismo.

Beatriz Realinho
Sobre o/a autor(a)

Beatriz Realinho

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais. Ativista política e das causas LGBTQIAP+, ambientais e feministas. Autora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”
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