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Responder à fome em Lisboa

A crise social criada pela Covid-19 é muito diferente de tudo o que já vimos e a fome bateu nas ruas com uma velocidade colossal.

A pobreza e a desigualdade estão galopantes. O confinamento aumentou as desigualdades, com pessoas a manterem o emprego e a ficarem em teletrabalho e outras a perderem tudo de um momento para o outro. Os precários ficaram para trás e quem já vivia na pobreza passou a viver muito pior. Para além disso, o voluntariado clássico e os apoios informais desapareceram, o medo do vírus fechou restaurantes e encerrou muita da resposta caritativa.

Nas últimas semanas vários coletivos se têm tentado organizar para dar resposta solidária à emergência alimentar. Em Sintra, na Tapada das Mercês e em Queluz, na Amadora, na Cova da Moura e Reboleira, no Barreiro, no Porto, mas também de norte a sul da cidade de Lisboa, vários coletivos progressistas, anarquistas, anti racistas, clubes de bairro, clubes desportivos, associações de moradores mobilizaram-se para dar apoio alimentar e social às populações. Estas mobilizações são claras no que estão a fazer: “não é assistencialismo, é solidariedade”; pode ler-se em publicações na internet. 

O governo anunciou que vai reforçar o programa de apoio alimentar para abranger 120 mil pessoas por todo o país e a Federação dos bancos alimentares em Portugal reuniu com o Presidente da República na passada semana indicando que o problema da fome está a aumentar muito nas últimas semanas.

A Câmara Municipal de Lisboa também fez um novo esforço de apoio alimentar. Logo quando as escolas fecharam o município decidiu manter a alimentação das crianças carenciadas distribuindo kits alimentares nas escolas. Dias depois a Câmara montou um sistema de suporte alimentar muito abrangente com as Juntas de Freguesia, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e com as Forças Armadas para dar alimentação às pessoas em situação de sem abrigo, a refugiados e migrantes ou a pessoas idosas isoladas que têm de estar em confinamento. É uma resposta de solidariedade nova.

Este apoio alimentar é absolutamente imprescindível para quem vive em Lisboa. A Câmara Municipal está a distribuir 1.500 cabazes alimentares comprados aos vendedores das feiras e mercados que não estão a conseguir escoar os produtos e todos os dias são dados quase 15 mil refeições, entre pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. Apenas uma em cada dez refeições são dadas na rua.

Aliás, mobilização para dar este apoio de emergência tem sido notável, é nas escolas que se produz esta alimentação e mesmo durante o estado de emergência tiveram as portas abertas para entregar as refeições, as Juntas de Freguesia e muitos voluntários têm ido dar alimentação porta-a-porta representando 80% da oferta, a Santa Casa da Misericórdia tem dado meios para que as famílias comprem a sua alimentação e a Câmara tem fornecido cabazes de produtos frescos.

Este sistema foi montado em período de estado de emergência e tem de ser revisto para que seja eficaz, chegando a quem mais precisa, mas, tendo em conta os números do desemprego e o impacto económico que a crise sanitária teve na vida das famílias, este suporte alimentar não pode faltar. 

A mobilização voluntária e solidária de várias associações e grupos informais tem sido muito importante, mas é necessário aumentar e manter a resposta pública porque não podemos aceitar que falte às pessoas o mais básico do básico: a alimentação. Mas esta não é uma resposta estrutural, é uma resposta de emergência e que não dispensa a luta pelo apoio do governo aos precários, a facilitação do RSI, o acesso amplo ao subsídio de desemprego e medidas de estímulo económico para a criação de emprego. No entanto, essas não são políticas municipais e locais, aos municípios cabe não deixar sem alimentação quem não tem o que comer e encaminhar as pessoas para as respostas sociais necessárias.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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