Responder à fatalidade com esperança

porAntónio Lima

31 de dezembro 2025 - 12:43
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O Governo PSD/CDS/PPM dos Açores assume que estes dados são uma fatalidade, porque sabe que são consequência da sua política, ao propor uma redução da idade da reforma com base neles. Até o seu novo plano de combate à pobreza, que demorou cinco anos a fazer, ficou na gaveta.

Nos últimos dias, foi amplamente noticiado na imprensa nacional e local um estudo da investigadora Ana Isabel Ribeiro, professora na Universidade do Porto, sobre a taxa de mortalidade padronizada por concelho. Como a própria investigadora afirmou ao Expresso, “este padrão não se explica por diferenças demográficas, porque as taxas utilizadas já foram ajustadas para eliminar o efeito da idade. Trata-se, por isso, de uma desigualdade estrutural que merece atenção.”

Mais uma vez, somos confrontados com a gigantesca desigualdade do país em que vivemos. E, mais uma vez, os Açores estão no topo: cinco dos dez concelhos com maior taxa de mortalidade são açorianos. No top vinte, há onze concelhos dos Açores.

As causas para esta desigualdade estrutural são várias. Mas desengane-se quem pensar que apenas a geografia explica os números dos Açores. Nemésio pode ter razão quando afirma que, nos Açores, a geografia vale outro tanto como a história, mas o trabalho, o salário, o centro de saúde, a casa, o hospital e a escola têm o potencial de vencer a geografia.

Concelhos como Angra do Heroísmo e Ponta Delgada têm taxas de mortalidade padronizada de 15% e 14,9%, respetivamente — muito acima da média nacional de 11,9% — e têm o hospital “à porta”. O concelho da Povoação, numa ilha com hospital, é o sexto pior do país e, nos Açores, só está atrás de Santa Cruz das Flores.

Há, por isso, mais do que a geografia e a mera distância aos cuidados de saúde podem explicar.

Os Açores têm a segunda maior taxa de sobrelotação habitacional do país, a maior taxa de risco de pobreza e são a região mais desigual do país. Os trabalhadores e trabalhadoras açorianos têm salários mais baixos do que no continente. Temos as mais baixas taxas de escolaridade e as maiores prevalências de várias doenças, como diabetes ou obesidade infantil. Temos hoje o maior número de doentes à espera de cirurgia desde que há registos públicos.

Os números não aparecem por acaso e, sabemos, não espelham toda a realidade. O Governo PSD/CDS/PPM assume que estes dados são uma fatalidade, porque sabe que são consequência da sua política, ao propor uma redução da idade da reforma com base neles. Até o seu novo plano de combate à pobreza, que demorou cinco anos a fazer, ficou na gaveta.

À fatalidade é preciso responder com esperança e trabalho determinado para mudar isto.

António Lima
Sobre o/a autor(a)

António Lima

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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