Não bastam desculpas, mais ou menos vagas, para a situação criada com o resultado das eleições legislativas 2024. É indispensável analisar o mais fundo possível estes resultados e procurar tratamento para o problema político e social que se instalou.
Cinquenta anos após o 25 de Abril, pensada ou impensadamente, um milhão e duzentos mil portugueses votaram na extrema-direita, pondo em risco muito do que foi conquistado pelo Povo, após a Revolução dos Cravos. Foi um conjunto de saudosistas do colonialismo, de um povo zangado com os políticos, de jovens ignorantes do passado, que não aguentariam viver oito dias como se vivia então, de ressabiados que recentemente obtiveram nacionalidade, de membros de seitas religiosas, que deram o seu voto à extrema-direita caceteira.
É evidente que a situação política internacional parece favorável ao ressurgimento de forças de carácter racista, xenófobo, machista, homofóbico, autoritário, justicialista, enfim fascizantes, decorrentes do Trumpismo, nisso não reside a causa única, mas ajuda a compreender o fenómeno no contexto internacional. A extrema-direita é utilizada e financiada por diversos sectores do grande capital, como tropa de choque no combate à esquerda e aos trabalhadores.
Por cá, a sucessão de incidentes políticos durante o governo de maioria absoluta do PS, marcou de forma negativa a sociedade portuguesa e promoveu um movimento de profundo descontentamento dos eleitores, o que os tornou mais permeáveis ao discurso de odio.
A preocupação de Pedro Nuno Santos e do PS em manter a ligação política à herança da governação de António Costa, sem fazer uma análise crítica do que tinha corrido mal, não contribuiu para ultrapassar o mal-estar instalado na sociedade.
Também o facto da presidência da Republica ser permanentemente opinativa, mesmo em circunstâncias pouco oportunas, antes e durante a campanha eleitoral, chegando a interferir, de forma menos correcta, nos acontecimentos foi, igualmente, um factor de ruído, ao mesmo tempo que o próprio pedia serenidade e cuidados.
A par disso, a existência de órgãos da comunicação social escritos e televisivos que, apesar da grave crise em que se veem mergulhados ou por isso mesmo, descuram a deontologia e passaram a apoiar a direita e a proporcionar espetáculo, tantas vezes deprimente, de comentadores maioritariamente alinhadas à direita, falando horas sobre a meia hora dos debates políticos, não facilitou a divulgação das propostas e das ideias dos partidos políticos.
A apresentação de propostas foi, em grande parte preterida face ao chorrilho de insultos e de sound-bites, mais ou menos despropositados, que têm como única função confundir ainda mais o leitorado.
Por outro lado, os chamados partidos do centrão são responsáveis pelo facto de permanentemente ser confundida a eleição de deputados para a Assembleia da Republica, com a eleição para primeiro-ministro, e esta é uma diferença fundamental do ponto de vista político.
Tenho por certo que os votantes dos partidos de extrema-direita não são todos fiéis seguidores das políticas fascizantes perfilhadas pelos dirigentes daqueles. O seu voto representa, em muitos casos, um protesto pelos resultados da governação da maioria absoluta dos últimos quatro anos. Quanto a isso há muito trabalho a fazer, se quisermos estancar a corrente.
Cabe aos democratas e aos seus partidos mostrar a quem votou na extrema-direita que acreditou em falsas promessas com que pretenderam iludi-los. Mas é preciso também que quem governa não se governe e atente muito mais às necessidades do Povo, e não só à Europa.
Mais transparência democrática é preciso.
Não é razoável pensar que não se tratou de uma derrota da esquerda. Mas não podemos deixar para trás valores como a liberdade, o Estado Social e todas as conquistas que o 25 de Abril permitiu.
A esquerda, conforme já foi proposto pelo Bloco de Esquerda, deve fazer balanço do que se passou, estabelecer contactos para evitar o resvalar de políticas para as mãos da extrema-direita, dada a periclitante situação em que a direita tradicional vai ter de governar.
Nós nunca permitiremos que o 10 de Março seja um ajuste de contas com o 25 de Abril, como o arruaceiro-mor da extrema-direita, André Ventura, claramente afirmou na noite eleitoral.
Para evitar a continuação de equívocos que perpassam, considero que a democracia só é possível com democratas e que sempre que vacila com os seus inimigos corre o risco de não conseguir sobreviver.
O Bloco de Esquerda já deu o tiro de partida para uma nova fase, propondo uma ampla plataforma de resistência às manobras da direita, prometendo resistir, resistir sempre.