República do eucalipto

porMiguel Guedes

28 de julho 2017 - 11:23
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A falta de respeito que ateia o fogo no rescaldo, indesculpável, arrasta a contagem dos mortos fazendo-se de morta.

Na República, o incêndio de Pedrógão já não deveria pintar capas de jornais ou abrir noticiários. Mas a catástrofe não só pertence às letras gordas como as preenche pelo pior dos motivos: a suposta incerteza dos números finais, uma conta sem-vergonha e cascavel a querer forçar entrada no funeral, à força para impedir o luto, à procura do aproveitamento político que não aproveita a ninguém, à vontade de querer reabrir caixões para contar cadáveres. A fazer fé num relato de pouca fé será mais um. Ou mais alguns. Uma pessoa atropelada ou outra com pneumonia. Rumores que se transformam em quadros, gráficos que nasceram de boatos, números diferentes para um funeral a cores, vinde. Contagem, fontes oficiais: 64. Ninguém pára com esta tormenta que faz de todos nós um enorme dano colateral. Está nas notícias, que se dane, Nodeirinho sabe. É então que o novo líder da bancada do PSD, Hugo Soares, dá 24-horas-24 ao Governo para libertar uma lista que o Ministério Público constituiu como segredo de justiça. Separação de poderes para que te quero, arde que queima. Bem-vindos à República do eucalipto.

O remate final dos números convocar-nos-ia a fechar o caixão. O assunto, a mal ou a bem, encontrar-se-ia arrumado, empurrado para o fundo do "feed" até se tornar comodamente inexistente para uns ou suficientemente inaudível para que as vítimas que ficaram possam em paz reconstruir a vida sem as vítimas que se foram. Uma memória que alguém nos relembrará mais tarde num lembrete fúnebre. Até ao próximo verão porque este há-de passar. O país continua a arder e a preocupação é a mesma de sempre: fogos em chamas, gente afogueada em desespero, mais um ano em que isto foi possível. Este já é o ano com maior área ardida da última década. Até ao próximo verão voltar a pedir meças.

Mais uma tragédia que tenderá a acabar pior. A falta de respeito que ateia o fogo no rescaldo, indesculpável, arrasta a contagem dos mortos fazendo-se de morta. Instituto de Medicina Legal, Ministério Público, Governo, Protecção Civil, corpos reclamados por familiares, todas as fontes oficiais e habituais asseguram que terão partido 64 pessoas em Pedrógão Grande. Pode ser mais um. Talvez. Ou outro. Diz que sim, diz que disse. A ciência do parece-me. Antes, os suicídios. Agora, os hipotéticos mortos da conspiração política. A gente que se atreve a arremessar mortos por hipótese acabará liquidada pela certa e o esgoto não apaga pirómanos.


Artigo publicado no Jornal de Notícias, 26/7/2017

Miguel Guedes
Sobre o/a autor(a)

Miguel Guedes

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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