Está aqui

(Re)Construir a escola

O Crato já lá vai — e já foi tarde. Mas, agora que esse pesadelo acabou, é preciso apagar o rasto de destruição destes 4 anos de retrocesso, abrir as janelas para sair o bafio, e reconstruir a escola.

O meu filho está no 5.º ano… Início de ciclo, cabeça erguida, vontade de aprender; amigos novos e mais responsabilidade; ping-pong nos intervalos, jogos da bola e almoços na cantina; mais disciplinas, mais professores, mais vontade. Porque mesmo já tendo aprendido muito, há todo o resto para descobrir, e este ano é só o início.

O primeiro teste foi também a sua primeira verdadeira batalha dentro deste novo mundo. Foi de Matemática, uma das disciplinas de que sempre gostou, mas isso não o impediu de sentir um imenso nervoso miudinho: de não saber o suficiente, de não conseguir explicar devidamente, de esquecer-se de alguma coisa. Claro que, em casa, tentámos acalmar tanta incerteza e medo. Mas o resultado não foi famoso: pela primeira vez na vida, não passou dos 50 por cento.

Chorou. E depois de chorar disse que o pior de tudo é que muitos dos amigos tinham tido notas mesmo baixinhas, abaixo dos 20 por cento. Ficámos alarmados: estes miúdos nunca foram maus alunos — antes pelo contrário —, porque é que não estavam a conseguir sequer atingir o mínimo nos mínimos?

Ao falar com a professora, ela enumerou, com a tranquilidade de quem já sabia que o resultado seria este, as causas do descalabro: o teste tinha sido um primeiro passo, quando ainda se estão a adaptar a um novo ciclo; a matéria era muito complicada para eles, e as novas metas curriculares não dão espaço para explicar, resolver dúvidas, consolidar; que a linguagem que têm de utilizar não podia estar mais distante da que lhes diz alguma coisa.

Em suma, confirmámos aquilo que até já tínhamos percebido: para miúdos de 9 e 10 anos, a matéria é demasiado complicada e abstrata, e as metas… não passam de tortura inútil para toda a gente, professores incluídos.

Se a grande maioria dos miúdos não tem maturidade nem capacidade para acompanhá-las, elas não servem: estão erradas, são antipedagógicas, e, mais grave do que isto, matam o prazer de aprender. A escola não pode ser um campo de guerra — nem os testes batalhas cada vez mais duras —, a menos que queiramos reduzi-la a uma vala comum de sonhos, capacidades e oportunidades, em vez da ser a linha da frente na promoção da aprendizagem, da integração e da cidadania.

O Crato já lá vai — e já foi tarde. Mas, agora que esse pesadelo acabou, é preciso apagar o rasto de destruição destes 4 anos de retrocesso, abrir as janelas para sair o bafio, e reconstruir a escola. É urgente apagar os exames, que secam tudo à volta e confundem treino com aprendizagem; temos de redescobrir o prazer da leitura, que está nos antípodas de contar x palavras por minuto; recuperar o prazer da Matemática, sacrificado à enumeração de termos demasiado complicados para os compreendermos, quanto mais sentirmos como nossos. Temos de trazer de volta para a escola a cultura, a criatividade, o espírito crítico e solidário, o brilho nos olhos de quando a escola se quis sonho, vida e poesia (e foi assim que demos cabo do analfabetismo, da ignorância e da pobreza como pena perpétua para tantos, lembram-se?).

Temos, em suma, de redescobrir que a escola é para os alunos — para todos os alunos. E isto significa, entre outras coisas, voltar a dotá-la de professores suficientes para que existam os apoios necessários a quem deles precisa, de psicólogos para fazer frente aos difíceis obstáculos que as crianças e famílias enfrentam, de auxiliares que os acompanhem no dia a dia.

É urgente apetrechar as escolas para a diferença, reduzir turmas, trabalhar a proximidade. Porque a escola tem se ser uma fonte de cidadãos preparados para viver numa sociedade onde todos têm lugar, e não um mausoléu do tempo da oura senhora, onde se comparam angústias e se aprende a encolher os ombros.

Sobre o/a autor(a)

Designer gráfica
Comentários (1)