A realidade baralha as contas do BCE

porVicente Ferreira

12 de abril 2024 - 13:11
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O BCE continua a resistir à descida das taxas de juro e o principal motivo referido para essa resistência é o "mercado de trabalho forte" - leia-se, o facto da política monetária ainda não ter provocado o aumento do desemprego pretendido.

Os dados mais recentes da Zona Euro confirmam a tendência dos últimos tempos: a taxa de inflação continua a diminuir mais rápido do que o que era antecipado pelas principais instituições. Em março, a taxa de inflação fixou-se nos 2,4%, encontrando-se já bastante próxima da meta definida pelo Banco Central Europeu (2%). A taxa tem vindo a diminuir de forma consistente desde que atingiu o pico há cerca de um ano e meio, em outubro de 2022.

Com a descida da taxa de inflação para valores manifestamente baixos, torna-se ainda mais difícil defender a manutenção da política monetária restritiva. No entanto, o BCE continua a resistir à descida das taxas de juro e o principal motivo referido para essa resistência é o "mercado de trabalho forte" - leia-se, o facto da política monetária ainda não ter provocado o aumento do desemprego pretendido.

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Depois de um choque inflacionista que não foi provocado pela procura e pelos salários, mas sim pelos constrangimentos da oferta de matérias-primas, a evolução dos últimos meses não é surpreendente. A taxa de inflação tem diminuído sobretudo devido à redução das pressões sobre os preços de matérias-primas essenciais, com destaque para a energia. O que explica a descida da taxa de inflação é o mesmo tipo de fatores que esteve na origem da sua subida inicial: os constrangimentos do lado da oferta, desde a política “zero-covid” na China, que atrasou a reabertura de cadeias de produção de que muitos países dependiam, à invasão russa da Ucrânia, que fez disparar os preços dos bens energéticos nos mercados internacionais.

Esta evolução só baralha as contas de quem assentou a política monetária numa premissa errada: a de que a inflação se devia a excesso de procura agregada e que os bancos centrais deveriam combatê-lo com recurso ao único instrumento de que dispõem - as taxas de juro - de forma a reduzir o investimento e a comprimir a atividade económica e o emprego. Quando só se tem um martelo, todos os problemas parecem pregos.

Vale a pena recordar o que escreveu o economista Joseph Stiglitz no final do ano passado: “É claro que os banqueiros centrais vão dar palmadinhas nas costas. Mas eles tiveram pouco papel na recente desinflação. O aumento das taxas de juro não resolveu o problema que enfrentámos. A desinflação ocorreu apesar das ações dos bancos centrais e não por causa delas.” O insuspeito Paul Krugman, que, à semelhança de Stiglitz, foi premiado com o equivalente ao nobel da Economia, também reconheceu que a inflação foi provocada por constrangimentos da oferta, ao contrário do que a maioria dos economistas defendia, aconselhando "cuidado com os economistas que não admitem que estavam errados".

A verdade é que a evidência empírica divulgada ao longo dos últimos dois anos - incluindo pelo próprio BCE - sugere que o problema não esteve no lado da procura e dos salários. Nesse sentido, a preocupação que o banco central continua a manifestar face aos números do emprego não tem a ver com o risco de uma espiral inflacionista que nunca se materializou. É um reflexo do posicionamento político - e não técnico - que está na base da sua atuação.

Artigo publicado em Ladrões de Bicicletas a 5 de abril de 2024

Vicente Ferreira
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Vicente Ferreira

Economista
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