A raspadinha não muda o jogo

porMariana Mortágua

04 de fevereiro 2021 - 23:07
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Foi o assunto da semana nos Estados Unidos. Pequenos investidores e grandes fundos financeiros enfrentaram-se, quais David e Golias, em torno das ações de uma empresa de venda de videojogos, a GameStop, muito afetada pelo encerramento da atividade económica.

Foi o assunto da semana nos Estados Unidos. Há quem lhe chame "revolta popular" e até "ativismo financeiro". Pequenos investidores e grandes fundos financeiros enfrentaram-se, quais David e Golias, em torno das ações de uma empresa de venda de videojogos, a GameStop, muito afetada pelo encerramento da atividade económica.

A história conta-se em poucas linhas. Com a pandemia, alguns grandes fundos financeiros apostaram na desvalorização da GameStop. Ao mesmo tempo, um grupo de investidores amadores reunidos na plataforma Reddit organizaram-se para apostar na subida das ações.

Apesar de não ter qualquer lógica aparente - a GameStop está em dificuldades reais com a pandemia -, esta onda foi de tal ordem que o preço da ação passou de 18 a 350 dólares em poucas semanas de janeiro. Os lucros rápidos entusiasmaram os amadores, que se sentiram invencíveis e levaram os grandes fundos a perdas de milhares de milhões. Passando de predadores a presas, correram a queixar-se contra a manipulação do mercado, exigindo a intervenção dos reguladores.

É irónico que os maiores fundos financeiros mundiais, responsáveis por tantos ataques especulativos, orquestrados de forma mais ou menos assumida, clamem agora por proteção.

Mas a utilidade desta bravata é apenas pedagógica, sobre a lógica absurda que predomina nos mercados especulativos. De facto, não estamos perante um "Occupy Wall Street" protagonizado por pequenos especuladores (por referência ao movimento de há dez anos, que contestou o papel dos mercados financeiros na crise de 2008). O mito do capitalismo popular pode renascer muitas vezes, até sob a aparência de democratização do acesso à alta finança, mas no fim da festa só fica um lastro de destruição e caos.

Desde os anos 70 do século passado que o aumento do peso da finança na sociedade é responsável pelo agravamento das desigualdades e da instabilidade económica. A criação de plataformas de investimento, acessíveis e "divertidas", faz parte desse processo. Com a adaptação do investimento em Bolsa à forma de jogo para quase todas as carteiras, regressa a velha história de que enriquecer sem esforço está ao alcance de todos. Com ela, são atraídas para a tômbola da especulação parcelas ainda maiores dos rendimentos individuais: salários, pensões, poupanças e também dívida. O resultado é apenas uma enorme desilusão. Só 2% dos investidores amadores lucram de forma consistente em Bolsa. Tudo o resto são poupanças e salários sugados por um processo imparável de concentração de riqueza. Mesmo que, pelo caminho, um ou outro grande fundo, desprevenido, possa ser atropelado.

O preço da GameStop não vai subir para sempre, como defendem os gurus do Reddit. Muita gente perderá as suas poupanças e Wall Street continuará tão instável e alheada da economia real como sempre.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 2 de fevereiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Mariana Mortágua

Deputada. Coordenadora do Bloco de Esquerda. Economista.
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