Querem tirar-nos as praias da Arrábida

porJaime Pinho

06 de junho 2026 - 14:16
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Enquanto em Tróia está a ser montada uma barreira de quilómetros entre a estrada e os resorts para dificultar o acesso às praias, aqui os novos donos da Herdade da Comenda querem apoderar-se de tudo, dos próprios areais.

O Parque Natural da Arrábida (PNA) foi criado em 1976, logo a seguir à Revolução, impulsionado por um grupo de jovens ambientalistas setubalenses que deram impulso ao movimento ecologista nacional. É gerido pelo Estado. Em 2023 foi classificado como Reserva da Biosfera da UNESCO.

O acesso histórico a trilhos e praias sempre foi pacífico. Apesar de ser gerido pelo Estado, algumas parcelas são de donos privados, sujeitas a regras do Plano de Ordenamento do PNA.

A Herdade da Comenda ocupa cerca de 600 hectares, que confinam com a cidade de Setúbal e com a beira mar/Estuário do Sado. Ao longo do tempo esta enorme parcela do Parque Natural foi mudando de donos. Nos finais do século XX pertenceu a um banco, depois a um grande promotor imobiliário (Xavier de Lima) e agora a um fundo imobiliário, inicialmente chamado “Seven Properties” e atualmente Palácio da Comenda SA.

Os atuais proprietários enveredaram por um confronto agressivo contra as populações que convivem com o PNA e contra o próprio Estado. Depois de tentarem usurpar o Parque de Merendas e serem derrotados, encheram o PNA de redes e grades de ferro para impedir a passagem pelos trilhos e o acesso a pequenos areais próximos do Palácio da Comenda. Para cúmulo, pretendem agora apropriar-se de cinco praias, até à linha de água, entre Albarquel e o Parque de Merendas.

Esta ganância desmedida e insaciável veio acompanhada de uma agressividade e conflitualidade constantes, visando destruir a sã convivência que sempre existiu entre a população, o Parque e os proprietários privados de algumas parcelas.

Albarquel é a mais popular das praias cuja posse reivindicam em tribunal, porque é a mais extensa e acessível a pé a partir de Setúbal. Sempre foi acarinhada por gerações sucessivas que guardam na memória momentos e recordações que vão transmitindo aos vindouros. Atualmente, gente de todas a idades e condições, da cidade, da região, imigrantes, turistas, acorre a Albarquel, até porque as outras praias em disputa (Esguelha, Rainha, Gávea, Comenda, Rasca) são pequeninas.

O que gera mais revolta é a ganância dos novos donos: querem tirar-nos as praias… areia e tudo! O que é uma novidade: enquanto em Tróia está a ser montada uma barreira de quilómetros entre a estrada e os resorts para dificultar o acesso às praias, aqui os novos donos da Herdade da Comenda querem apoderar-se de tudo, dos próprios areais.

E estamos nisto. Rodeada de praias de que sempre desfrutou, a população vê-se subitamente impedida na prática de alcançar a praia que começa em Tróia e se estende por dezenas de quilómetros para sul, graças aos preços proibitivos da travessia fluvial e às barreiras das mansões de luxo. Mansões que arrasam as dunas às escondidas, com parque de estacionamento e campos de lazer e desporto para uma minoria de super-milionários que raramente lá põem os pés. 

E do lado de cá do rio, ao longo da costa da Serra da Arrábida junto à cidade, deparamos com esta ganância que vai ser derrotada pelo clamor e mobilização popular que se alarga.

A Petição popular dirigida à Assembleia da República ultrapassou rapidamente as 2.000 assinaturas e pode ser encontrada em praias.bloco.org.

Jaime Pinho
Sobre o/a autor(a)

Jaime Pinho

Professor de História
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