Iniciou-se, em 2024, e de forma muito prematura, a discussão sobre as eleições para o lugar de Presidente da República, ainda que este ato eleitoral apenas se vá realizar em janeiro de 2026. Não é fora do comum, em Portugal, antecipar certas discussões. Ainda assim, não deixa de ser estranho assistir a uma grande pressa em falar deste assunto, especialmente por parte dos partidos do tradicional arco do poder.
A iminente candidatura de Gouveia e Melo (GM), sobre o qual desconhecemos qualquer ideia política (além de umas palavras soltas), é marcada pelo vazio ideológico que representa. Com um discurso assente num certo pragmatismo militar, esta futura candidatura cai como uma luva para os portugueses (cansados dos partidos “tradicionais”) e tem o potencial de devastar qualquer candidato do centrão.
Entre as várias candidaturas partidárias já propaladas, destaco três: PSD, com Luís Marques Mendes (LMM), PS, entre António José Seguro (AJS) e António Vitorino (AVi), e Chega, com André Ventura (AVe).
Após 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência, o PSD repete o mesmo esquema, apostando na visibilidade e reconhecimento público de Luís Marques Mendes. Comentador na televisão, há já 12 anos na SIC, mesmo isto não o beneficia - LMM não entusiasma, nem o país, nem as próprias bases do partido. No entanto, conta com o apoio da Comunicação Social: veja-se a forma como a SIC (do barão do PSD, Francisco Pinto Balsemão) tem propagandeado a sua candidatura.
O PS, incapaz de descolar do PSD nas eleições, encontra-se sem rumo. Com uma viragem à direita na política e na narrativa, Pedro Nuno Santos lançou um conjunto de putativos candidatos a candidatos ao longo dos últimos meses. A lista resume-se, agora, a dois nomes: AJS e AVi. Ambos representam uma candidatura encostada à direita, sendo que ambos têm anticorpos junto do país e das bases militantes. AJS é o ex-secretário-geral falhado, que esteve disponível para apoiar políticas troikistas do Governo de Passos Coelho, enquanto AVi representa a dominação da política pelos interesses instalados (a personificação dos lobbies na Presidência).
Por fim, o Chega aposta, uma vez mais e sem surpresas, em AVe. Após uma tentativa falhada de colagem à candidatura de GM, a extrema-direita irá concorrer sozinha, numa prova de vida para medir forças com PS e PSD. Procurando normalizar as suas ideias hediondas e explorar as fraturas na sociedade, o objetivo do Chega é chegar a uma segunda volta e mostrar às grandes fortunas que é fiável.
Em suma, as eleições Presidenciais ilustram a fragilidade do sistema democrático e a realidade nebulosa em que vivemos. Os vários candidatos da direita, desde o PS até ao Chega, têm esgrimido por atenção, na esperança de disputar uma segunda volta. Ainda que a eleição esteja distante, é provável que GM dispute uma segunda volta - resta saber contra quem.
A Esquerda tem o dever de pensar seriamente no que pretende e apresentar uma candidatura forte e unitária, que represente, de forma corajosa, os seus valores e seja capaz de mobilizar a população para este importante ato da Democracia. Que ninguém se engane: a decisão em torno da próxima Presidência da República refletirá as profundas transformações na sociedade que advirão.
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 6 de fevereiro de 2025