“Quem hoje encerra lugares de memória, prepara terreno para lugares de extermínio”

porLuís Monteiro

24 de janeiro 2025 - 21:27
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Javier Milei decidiu encerrar o Centro Cultural Haroldo Conti onde se preservava a memória da ditadura militar da Argentina (1976-1983). As feridas abertas de um passado difícil como este estão a ser novamente expostas pela nova extrema-direita que governa o país desde dezembro de 2023.

O início do ano 2025 na Argentina foi pautado pela decisão do atual Presidente Javier Milei em encerrar o Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti. Este equipamento cultural está situado num dos maiores lugares de memória da resistência à última Ditadura Civil-Militar Argentina (1976-1983), o Espacio Memoria y Derechos Humanos, situado nas antigas instalações da antiga ESMA - Escola de Mecânica da Armada, onde outrora funcionou o mais fatal campo de prisão, tortura, trabalho forçado e extermínio. Neste centro clandestino foram sequestradas, torturadas e dadas como desaparecidas no local cerca de cinco mil pessoas, entre militantes políticos, estudantes e artistas. Ainda hoje, a sociedade argentina, nomeadamente as mães e os filhos dessas vítimas, reclama por justiça histórica. Quando a distopia governa, assistimos ao que não imaginávamos repetir-se: o encerramento do museu foi decretado pelo secretário dos Direitos Humanos, Alberto Baños, através de uma mensagem por whatsapp enviada aos funcionários.

Tive oportunidade de visitar este espaço em Buenos Aires em julho do ano passado. A vasta área que combina um conjunto de entidades da área da memória, como o Museu ex-ESMA, o já citado Centro Cultural Haroldo Conti, a Associação das Mulheres e Mães da Praça de Maio, entre outros, é um chocante resquício de terrorismo de Estado durante os anos da ditadura. Patrimonializado desde 2008, tornou-se o maior equipamento cultural argentino a debruçar-se sobre a reparação histórica desse passado. A importância de não esquecer o que ali se passou entre 1976 e 1983 não tem apenas um interesse histórico ou académico. A transformação de um antigo lugar de terror num espaço de memória pensado para proteger as vítimas é fundamental para a consolidação dos ideais de justiça social, valores democráticos e respeito pelos Direitos Humanos na sociedade argentina contemporânea.

Apesar da medida ter sido apresentada como mais uma necessidade de cortes na despesa pública, sabemos que a distância entre o discurso económico dogmático liberal e a vontade de apagamento da memória da ditadura por parte de Javier Milei é muito ténue. A tecnocracia é sempre antidemocrática, atropela sempre os princípios democráticos e os seus intervenientes em nome de uma solução autoritária. Milei é a expressão acabada desse novo fascismo do século XXI, ultraliberal nas medidas económicas e ultraconservador na imposição de um modelo de sociedade que apaga da equação as vozes dissidentes.

As parecenças do discurso e postura de Milei com as motivações dos autores do golpe militar de 1976 comportam consigo um programa que junta fascistas convictos, liberais incomodados com os preceitos dos sistemas democráticos e arrasta consigo milhões zangados com a “política e os políticos”. A imagem do anti-político é partilhada por todos os grandes líderes fascistas dos anos 20 do século passado. Já conhecemos a história, podemos evitar que se repita, como tragédia ou farsa.

“Quem hoje encerra lugares de memória, prepara terreno para lugares de extermínio”, lê-se num cartaz de uma manifestação em Buenos Aires em defesa da reparação histórica de todos os mortos e desaparecidos da ditadura. As feridas abertas de um passado difícil como este estão a ser novamente expostas pela nova extrema-direita que governa o país desde dezembro de 2023. A memória é um campo de batalha e está mais vivo do que nunca. O avanço do Fascismo apoia-se numa deturpação do nosso passado coletivo, fantasia sobre identidades nacionais e feitos históricos para justificar assassinatos e genocídios, apaga memórias subalternas para fazer vingar uma visão única sobre o mundo.

Luís Monteiro
Sobre o/a autor(a)

Luís Monteiro

Museólogo. Investigador no Centro de Estudos Transdisciplinares “Cultura, Espaço e Memória”, Universidade do Porto
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