Quem desiste de Lisboa?

porFrancisco Louçã

23 de dezembro 2024 - 16:53
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Continuo a pensar que uma política responsável na habitação, na gestão do espaço público, na política de transportes e transição climática ou na criação cultural é fundamental para quem vive na cidade. E disso só desiste quem quer desistir.

O PS desistiu do Porto. Ao apresentar Manuel Pizarro como o seu candidato mostrou que não lhe interessa disputar aquela câmara municipal. Seria preciso uma candidatura forte, um compromisso programático e uma unidade ampla e a tudo isso o PS fechou a porta ao anunciar esta escolha. Nem candidato – Pizarro já tinha concorrido e esteve aliado com Rui Moreira na vereação, pelo que não pode ser apresentado como alternativa –, nem programa, nem um vislumbre de esforço unitário, que fica comprometido pela precipitação e pela opção anunciada.

Em Lisboa é ao contrário quanto a candidatura e nem por isso é melhor: não há uma palavra, um gesto, uma iniciativa da parte do PS. Silêncio mole. Ora, Lisboa é a disputa fundamental das autárquicas e é mesmo um caso único, pelas suas implicações. É uma campanha difícil, dado que a mudança da sociologia da cidade, com a expulsão de velhos e jovens e, sobretudo, do eleitorado popular, facilita a vitória da direita. Para Moedas, que é o intérprete local do modelo madrileno de Ayuso – o máximo de agressividade social mais um discurso extrema-direitizado –, é viável consolidar a sua posição com o voto dos automobilistas, dos proprietários do alojamento local e dos reis Midas da especulação. Em qualquer caso, para a esquerda a opção é esta: ou ganha agora, e pode ganhar, pois ainda tem uma maioria na cidade, ou em cada eleição futura se tornará mais difícil. Ou ganha ou desiste.

Nos dois casos em que se registaram vitórias difíceis contra candidatos difíceis, o PS decidiu arriscar muito. Jorge Sampaio era secretário-geral e sabia que, se perdesse na câmara, a conspiração interna terminaria o seu poder. Lançou-se, o que foi a condição para a única frente ampla de esquerda que a cidade conheceu, com a aceitação do PCP (que então era a principal força eleitoral da cidade) e depois de outras forças de esquerda. Ganhou. Fez o seu percurso dando garantias à população, com um programa constituído através da participação de profissionais, associações e movimentos que trouxeram consistência a compromissos praticáveis e calendarizados. O segundo caso foi o de António Costa, que abandonou o governo e disputou a câmara. Ganhou. O primeiro saiu depois da Câmara para uma candidatura vitoriosa à Presidência, o segundo para uma candidatura vitoriosa que lhe deu o lugar de primeiro-ministro, com a "geringonça". Basta olhar para a história recente para perceber que, se o PS quer vencer, precisa de ousadia, de propostas mobilizadoras em ruptura com o passado e de conseguir unidade. Ou então apresenta uma candidatura para perder, o que por agora parece ser a sua preferência empenhada.

Vencer é também uma responsabilidade de todas as esquerdas e o tempo joga contra nós. Não é fácil. O PCP apresentou o seu candidato declarando que não admite qualquer possibilidade de entendimento. É um direito inquestionável, se prefere marcar posição. Mas o argumento para recusar a única convergência que poderia ganhar à direita é problemático: que o PS tem vindo a conciliar com a direita, como por exemplo aceitando os seus orçamentos municipais e outras políticas. A crítica é factual e precisa. Só que o próprio PCP tem valorizado circunstancialmente as oportunidades de entendimento (já fez parte de acordos de vereação com o PSD e já se absteve em orçamentos de direita, como no Porto com Rui Rio, e noutras cidades), pelo que me parece mais sensato discutir a vereação futura do que a passada.

Ora, talvez o que interesse mesmo aos habitantes de Lisboa seja quem vai governar a cidade e para fazer o quê. Continuo a pensar que uma política responsável na habitação, na gestão do espaço público, na política de transportes e transição climática ou na criação cultural é fundamental para quem vive na cidade. E disso só desiste quem quer desistir, o que parece ser a vontade do Largo do Rato, dado que, para já, parece haver mais manifestações de desistência do que empenho na vitória.

Este texto é parte da intervenção de Francisco Louçã no podcast “Um pouco mais de azul”, onde também participam o jornalista Fernando Alves e a poeta Rita Taborda Duarte. O podcast completo aqui

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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