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Quem chora na despedida de Merkel?

A despedida da chanceler suscitou mais pesar na União Europeia do que na Alemanha. A sua herança é pesada: na modernização da economia, no défice zero e na transição demográfica.

Ao fim de 16 anos, Angela Merkel despediu-se da chancelaria alemã, uma partida que suscitou mais pesar na União Europeia do que no seu próprio país. Mesmo sendo uma liderança renitente na Europa alemã, pois o passado ainda não passou, Merkel dominou a política continental, primeiro prosseguindo o eixo franco-alemão de Mitterrand e Kohl e, depois, afirmando uma indiscutida hegemonia solitária. Foi ela quem marcou a política destrutiva dos países da periferia com a crise das dívidas de 2011 das troikas, sacrificando Portugal. Na segunda metade da década procurou uma resposta à crise dos refugiados e também aí preferiu o compromisso à solução, impondo um acordo com a Turquia e ignorando o princípio do direito humano, mas fez disso uma imagem de abertura e teve de aceitar uma nova resposta do BCE ao prolongamento da instabilidade financeira, criando moeda massivamente e baixando os juros. O que é facto é que os governos europeus se sentem órfãos.

No seu país, no entanto, o cansaço-Merkel dominava. Não é para menos. A sua herança é pesada, por três motivos. Em primeiro lugar, beneficiando de condições únicas, como a engenharia do euro (“o euro foi o maior bónus que a Europa ofereceu à Alemanha”, dizia António Costa numa entrevista há dois anos, com toda a razão), a abertura do mercado chinês para as exportações de alta tecnologia alemã e o acordo com a Rússia para a importação de gás, e mesmo tendo imposto uma política de salários comprimidos, a Alemanha não cumpriu os seus objetivos de modernização económica. Ainda hoje é um dos maiores emissores de dióxido de carbono per capita, acima da média europeia, e procura recuperar o tempo perdido financiando campeões industriais com a ‘bazuca’.

A herança de Angela Merkel é, sobretudo, a fuga aos problemas. Era mesmo tempo de se ir embora

Em segundo lugar, Merkel impôs em 2009 uma alteração constitucional fixando o défice zero. É um travão estúpido. Em 2020, o défice foi de 4,6%, este ano será mais, teve de ser usada uma cláusula de emergência para o permitir, mas Laschet e Scholz querem voltar ao travão. O resultado foi que a Alemanha não aproveitou os juros negativos para remodelar a sua infraestrutura. O investimento público baixou dos 4% (em Portugal até seria boa notícia, mas são contas de outro rosário), uma média historicamente inédita na Alemanha, com efeitos trágicos, como se verificou durante as inundações de julho no oeste do país.

Em terceiro lugar, há uma transição demográfica que tem um preço. Os maiores de 65 anos eram em 2000 26,5% da população, mas serão em 2025 41,4% e, brevemente, mais de metade. O que significa um custo para os sistemas de pensões, agravado pelos juros negativos, e mobiliza a necessidade de imigração, que tem um preço político explorado pela extrema-direita. Em todas estas questões, a herança de Merkel é, sobretudo, a fuga ao problema. Era mesmo tempo de se ir embora.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 1 de outubro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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