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Queimar a esfregona

Há dados chocantes. Um deles é que na UE as mulheres trabalham mais 59 dias por ano para ganhar o mesmo que os homens. Outro é a comparação com Portugal, onde elas trabalham ainda mais 7 dias do que a média europeia —aqui, temos de trabalhar mais 65 dias para o nosso salário ser equivalente ao deles.

Nos últimos 5 anos, a diferença salarial entre géneros aumentou 70 por cento. Portugal, a par com a Hungria, Estónia, Bulgária, Irlanda e Espanha, foi dos países onde essa disparidade mais aumentou. E não é por acaso: os países atingidos pela crise económica são aqueles em que as mulheres estão mais vulneráveis. São as primeiras a ser despedidas, são quem menos vê o seu salário aumentado e quem tem mais dificuldade de colocação no mercado de trabalho.

A evolução da escolaridade das mulheres foi brutal. Passámos de cerca de 54 mil licenciadas em 1980 para 754 mil e hoje, no nosso país, cerca de 60 por cento dos licenciados são mulheres. No entanto, esta evolução não se traduziu em mudanças no universo laboral, sendo até nas profissões com maior formação académica que a disparidade é maior. Por exemplo, os lugares de topo nas empresas continuam a ser ocupados por homens, e, quando elas os conseguem atingir, têm uma remuneração inferior à deles. E se olharmos para as empresas do PSI20, vemos que há apenas 6 por cento de mulheres nos conselhos de administração; nos lugares de presidente executivo e não executivo, a presença é de 0 por cento: não há uma única mulher.

O senso comum machista, entranhado na nossa sociedade, diz que “eles é que foram feitos para trabalhar”. A elas cabe-lhes ter os filhos, e passar a vida a tratar deles ou de chatices que tenham a ver com a escola, a saúde ou o lar — a vida familiar retira-lhes “tempo para trabalhar” e se dedicarem à empresa. E diz mais: diz que as coisas mudaram (é um facto, mudaram), porque a igualdade é uma preocupação reconhecida politicamente, e muitos homens até já ajudam a fazer o jantar, a estender a roupa, a dar banho às crianças, etc.

Enquanto falarmos em ajuda, estamos apenas a confirmar o estereótipo e a validar a falácia de que uma “ajuda” deles nas tarefas “delas” implica uma efetiva partilha de responsabilidades (e ainda a propagar a ideia de que há sempre um "ele" e "ela", mas isso são outros quinhentos). A realidade é que a desigualdade reproduz-se: continuam a ser as mulheres a ocupar-se, maioritariamente, das tarefas domésticas e de apoio familiar, naquilo que, na prática, se revela um segundo emprego não remunerado. O que, a juntar às assimetrias no mercado laboral, se traduz, cada vez mais, em relações de dependência e invisibilidade que impedem, inclusivamente, uma denúncia efetiva do predomínio do machismo nas relações sociais e familiares.

É que outra consequência da dupla jornada laboral das mulheres é a falta de presença na vida política. A intervenção social das mulheres só supera a dos homens nos campos da família ou das atividades domésticas — o que prova que é possível organizar movimentos sociais inclusivos. E como quem não está não pode fazer-se ouvir, a participação cívica revela-se, normalmente, uma área onde a participação feminina é muito propagada, mas nunca incentivada no concreto.

Porque continuamos, todos, a perpetuar esta discriminação silenciosa, dando-a por “natural” e inevitável, hoje, no Dia Nacional da Igualdade Salarial, queimemos as esfregonas e tomemos conta das nossas vidas. E amanhã. E depois.

Sobre o/a autor(a)

Asessora no pelouro da Educação na Câmara Municipal de Lisboa.
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