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Que tal dar uma volta à cultura?

A cultura deixou-se de salões e desceu à rua. O Ministério não sabe lidar com a situação. É tempo, então, de avançar com propostas alternativas e colocar a cultura noutros carris.

Já se percebeu que o atual Ministério da Cultura não conseguirá pôr em marcha um plano estratégico para o sector. Até agora, só fumaça; admitimos que não seja fácil mas não vislumbramos nadica de nada. O recente relançamento do Plano Nacional de Leitura foi um reajustamento e, claro, muito saudado. O busílis é que a multiplicidade de frentes na cultura não se esgota no Plano Nacional de Leitura. Salvar uma árvore não chega para defender a floresta.

O património nacional representa 900 anos de história. Terá de ser encarado de forma global e estratégica, sujeito a diversas avaliações e a sua preservação e conservação terá de subordinar-se a diferentes prioridades. Seria talvez um bom começo definir os parâmetros para esta avaliação, tabelas que variarão, naturalmente, de sector para sector. Se este trabalho ainda não está feito, seria oportuno pensar no assunto até porque praticamente não representa custos. O trabalho é de gabinete com os técnicos que existem e que já são pagos pelo Estado.

A defesa do património e os princípios em que assenta aquecem a questão relacionada com a avaliação das telas expostas até há pouco tempo nas Janelas Verdes e agora, estrada fora, até ao Porto. Insistir no caso ultrapassa em muito uma implicação pela simples razão de que o caso é paradigmático na definição e prossecução de uma verdadeira política de defesa do património. Depois de algum debate público, finalmente as telas foram analisadas no Instituto de José de Figueiredo mas sobre essa avaliação pesará sempre uma sombra. A análise avançou mesmo ao fechar da exposição (quando devia ter sido feita antes da exposição determinando o próprio guião desta) denunciando uma opção estranhíssima e em tudo avessa à noção de tempo; a entidade escolhida para executar o trabalho está sob a mesma tutela que o MNAA o que não pode deixar de ser olhado um pouco de soslaio; e não ficou muito claro se foram mesmo feitos os exames essenciais. Não é preciso ser vidente para imaginar a chacota e o descrédito. O resultado foi a confirmação da autenticidade da tela. Que bom não é nem a expressão nem a conclusão adequada porque o incómodo é indisfarçável. Não se retire destas palavras que ambicionávamos um resultado negativo. A ambição que alimentámos resume-se à adoção de outro código de ética e de outro profissionalismo passando pela valorização do conhecimento e da ciência, pela dignificação dos técnicos. Num instante se perde o que levou décadas a cimentar. Agora que os populismos estão no centro do debate, também devem ser banidos da cultura. O único percurso ética e cientificamente correto teria começado pela datação, sem margem para dúvidas, das telas que justificaram a realização da exposição. A partir desse conhecimento exato (abençoada ciência!) poderia ter sido necessário equacionar outra exposição: sendo as telas mais modernas, correspondendo a uma reconstituição com base em documentos da época, oh, mas elas são tão interessantes, deixam-nos a congeminar...então, e se Lisboa tivesse sido, alguma vez, assim, colorida, múltipla, aberta?

O Ministério da Cultura está suspenso; paira, senhor de uma insustentável leveza. Tem os problemas da gestão imediata colocados pelos técnicos, pelas carreiras, pelos orçamentos, pelos apoios e subsídios. Essa é a primeira linha: o confronto imediato com o público, com os intervenientes. Nos gabinetes, a coisa muda de figura e prende-se com a adoção de políticas e estratégias, bem mais complexa. Para abrir o debate, estes níveis deverão ser apartados. Discutir ideias, objetivos, projetos; quem é quem porque quando se discutem verbas e subsídios não se consegue equacionar estratégias; toldam-se as mentes, incendeiam-se os argumentos. Por um lado, perceber o que pode ser resolvido no imediato, olhando aos direitos e expectativas dos intervenientes; por outro, com o apoio desses mesmos intervenientes, enfrentar o desafio estratégico. E definir o que cabe à administração central e o que se poderá, eventualmente, delegar na administração local. Onde fica a fronteira entre estas administrações? Que responsabilidades assume cada uma, e como se articulam? A responsabilização das autarquias não pode corresponder a um dar à sola da administração central. Ah, regabofe. Para desemaranhar o novelo, urge distender o fio. Tudo ao molho...quem ganha? Mergulhamos sempre de cabeça no caldeirão, resultados nulos.

Há pintura com indesmentível valor documental: as telas duvidosas expostas nas Janelas Verdes ou outras escolhidas ao acaso para grande azar de Dijsselbloem. Algumas pinceladas de compatriota seu e, quem diria, o mundo de pernas para o ar!

De surpresa, fomos apanhados com a acusação xenófoba de que gastamos o dinheiro em “vinho e mulheres”. Houve indignação geral mas o balão esvaziou bastante depressa. Para além de xenófobo, o comentário revela ignorância da própria história e cultura e nem as desculpas tardias fazem esquecer o que foi dito. Vale a pena uma pincelada de história. Os Países Baixos produziram sempre grandes pintores que se distinguem entre eles apenas porque uns são maiores que outros, um património inesgotável através do qual uma observação atenta pode denunciar factos curiosos. No século XVII holandês, celebrizou-se a pintura intimista, de temática civil e do quotidiano. Um simples olhar por alguns desses quadros desmonta a teoria arrogante dos Dijsselbloem. Um pintor, Gerard ter Borch, três telas todas da segunda metade do século XVII, testemunham de forma insofismável como “vinho e mulheres”, lá para as terras do norte, era prática socialmente aceite. Numa das telas, um homem debruçado sobre uma figura feminina sentada, oferece-lhe maliciosamente vinho. Intitula-se a obra “Homem incitando uma mulher a beber” (e o mais que a imaginação nos permitir); noutra tela, um homem jovem e janota insinua-se junto de uma mulher atraente. As falinhas, mansas ou não, deram título à tela conhecida como “Conversa galante”. Antes de falar, Dijsselbloem não se lembrou destas telas (e de outras), talvez só tivesse mesmo presente a “Mulher descascando batatas” mas isso, apesar dos esforços, para nós é passado sem retorno. Três pinceladas, qualquer delas uma obra-prima.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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