Que lindos vão ser os aumentos dos salários

porFrancisco Louçã

16 de julho 2023 - 0:36
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Os estatutos do BCE foram instituídos para que os que os aprovaram pudessem dizer coisas na certeza absoluta de que tal será indiferente. Protestam para impressionar a opinião pública.

As últimas semanas assistiram ao nascimento de uma nova espécie no complexo mundo em que vivemos: os lagardólogos. Munidos da doutrina, demonstram a invejável capacidade de interpretar aquele oráculo que nos avisou, a partir de Sintra, que haverá uma segunda fase de ajustamento dos preços em que as subidas dos salários começarão a compensar as perdas que já sofreram. Mas, atenção, é preciso evitar exageros, ou os salários fazem disparar uma espiral inflacionista. Comentei aqui na semana passada essas elípticas frases da presidente do BCE, que reconhece que foram as margens de lucro a causar a inflação, se bem que sobre isso mande a dita doutrina que se não faça nada, é o mercado a funcionar, e que, na dúvida, recomenda aos Governos que ponham travão aos salários. O ajustamento faz-se, portanto, pela perda nos salários. Acrescentam os lagardólogos que a estratégia é perfeita, a zona euro já está em recessão, os rendimentos familiares diminuíram, a pobreza aumentou, tudo como devia ser.

O problema é que isto é mais difícil de dizer pelos responsáveis políticos que terçaram para que o BCE possa fazer exatamente assim. Protestam, portanto, unicamente para impressionar a opinião pública, como lhes lembrou Constâncio. Afinal, os estatutos e o poder do BCE foram precisamente instituídos para que os que os aprovaram pudessem dizer coisas na certeza absoluta de que tal será indiferente. No entanto, apesar desta norma do cinismo tão bem estabelecida, caem por vezes esses governantes na armadilha da precipitação, arriscando-se até a repetir o que vai dizendo o BCE, cujas mudanças de agulha são insuscetíveis de qualquer controlo democrático e, portanto, mais ginasticadas. Foi assim que o Governo português alinhou pelo diapasão da inflação “temporária” (portanto, nada de aumentos sala­riais, a coisa vai estabilizar, mesmo que, curiosamente, os preços não recuem e, portanto, a inflação “temporária” seja definitiva). Contudo, o mais expressivo desses alinhamentos devotos foi a repetição de que os salários não poderiam recuperar, justamente o que provocou alguma surpresa quando Costa veio a terreiro criticar o BCE dizendo uma evidência, “é mais ou menos claro” que “o aumento dos lucros extraordinários tem contribuído mais para a manutenção da inflação do que a subida dos salários”.

As últimas semanas assistiram ao nascimento de uma nova espécie no complexo mundo em que vivemos: os lagardólogos

Só que esse arroubo foi em junho. Em abril do ano passado, o mesmo primeiro-ministro dizia exatamente o contrário, que a espiral inflacionista condicionaria as escolhas do Orçamento: “O que não vamos é embarcar em medidas de ilusão onde rapidamente os aumentos são consumidos pela inflação. Temos mesmo de travar a inflação e não multiplicá-la, numa espiral que depois ninguém sabe como é que se controla.” Portanto, nada de salários. Em setembro, o primeiro-ministro concretizou, os funcionários públicos que se habituem, “não vão com certeza ser aumentados em 7,4%” (o valor que o Governo antecipava para a inflação), tendo acrescentado que o aumento deveria andar pelos 2%, pela espantosa razão de que isso “estaria em linha” com o valor definido como objetivo pelo BCE e pela União Europeia. Até é difícil encontrar alguma lógica neste enredo, em que a perda de valor dos salários deve ser “alinhada” pelo objetivo do BCE… para a inflação, que na realidade é o quádruplo. Mas dito e feito, os salários foram condenados na Função Pública e em toda a economia foram arrastados para esse abismo inflacionista. Vem então agora o primeiro-ministro criticar o que antes era a sua certeza, atacando Lagarde pelo que ele próprio dela repetiu — e, disposto a nada, o BCE mover-se-á paquidermicamente para novos aumentos de juros e os salários em Portugal continuarão muito abaixo dos cerca de 15% que a inflação lhes come em 2022 e 2023.

Assim sendo, parece um pouco exagerado o anúncio pelos lagardólogos de que haverá um processo mágico de recuperação salarial em 2024. Aliás, eles próprios já montam as baterias de mísseis contra aumentos que não estejam “em linha” com os 2% de inflação que um dia voltarão a trazer a nossa felicidade, não nos pergunte como. Em Portugal, onde um salário de mil euros em 2002 teria que ser hoje de 1422 euros para manter o mesmo poder de compra e onde mais de metade dos trabalhadores e dois terços dos jovens empregados recebem abaixo dos mil euros, o efeito destas restrições tem sido um empobrecimento de quem trabalha, pelo que é de supor que escassa seja a confiança neste aumento fiado para amanhã e que já desperta tanto alarme nas altas esferas. Além disso, como sublinhou José Reis, “75% do emprego em Portugal está em ramos com produtividade igual ou inferior a 90% da produtividade média, alguns até bastante inferior”, o que se pode também atribuir à especialização no turismo, com salários baixos e qualificações degradadas. É um buraco cósmico que explica tanto a emigração quanto a perda do prémio da qualificação de ensino superior, agora metade do que se registava há 10 anos.

O aumento dos salários é sempre a chave para desbloquear estas condenações. Mas, como os lagardólogos nos avisam, o BCE não quer. Esperar que haja correção salarial ou, supremo atrevimento, controlo dos juros dos bancos ou dos preços alimentares seria acreditar que esta economia é para pessoas. Com franqueza, é melhor nem pensar nas consequências.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 7 de julho de 2023

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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