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Que inteligência artificial é inteligente?

A vantagem que para os promotores destas máquinas justifica o uso destes mecanismos é precisamente o que as torna perigosas. Falta-lhes uma das dimensões fundamentais da vida humana, a capacidade de decidir com emoção e com experiência.

Uma das promessas da modernidade, a inteligência artificial (IA), foi antecipada há décadas como um novo mundo de possibilidades de computação e de decisão. Se bem que a querela sobre a sua natureza se arraste, provocando um fosso insondável entre quem a interpreta como uma limitada réplica do cálculo humano e quem antevê a promessa de criação de vida artificial autossuficiente, alguns dos seus campos de expansão dão-nos respostas contraditórias sobre o que a IA pode vir a significar.

No tratamento de massas de dados, a IA é o único instrumento disponível para pesquisas sistemáticas e para seleção de informação. Por isso as empresas de big tech alimentam departamentos de ciência de dados que são dos principais laboratórios mundiais nesta área. Mas estas utilizações podem ter efeitos perversos: as tecnologias de controlo não as dispensam (imagine o cruzamento de softwares de reconhecimento facial com listagens para verificação de comportamentos sociais, como na China e noutros países), além de poderem ser usadas para efeitos mais comezinhos. Shoshana Zuboff, uma professora da Universidade de Harvard que estuda o capitalismo de vigilância, cita o exemplo real de um casal de idosos nos EUA a quem foi retirado o automóvel por falta de pagamento do seguro. Por sorte, houve um funcionário da empresa que os contactou e, conhecendo a sua história, decidiu ajudá-los, organizando uma coleta para pagar a dívida. Um programa informático não seria capaz de tomar essa decisão, não conhece a compaixão.

Um segundo exemplo, mais preocupante, é suscitado por um relatório, de março, de peritos da ONU sobre a Líbia. Apuraram que, na batalha por Trípoli, em 2020, o Governo lançou drones para atacar posições inimigas e que esses aparelhos estavam programados para disparar sobre os alvos que identificassem sem a autorização do operador. O futuro da guerra pode ser este, o de máquinas que tomam decisões bélicas sem ação humana direta. As consequências são gigantescas.

Num caso como noutro, a vantagem que para os promotores destas máquinas justifica o uso destes mecanismos é precisamente o que as torna perigosas. Falta-lhes uma das dimensões fundamentais da vida humana, a capacidade de decidir com emoção e com experiência. Não há, nem haverá, inteligência sem coração.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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