Que governo é este?

porBruna Oliveira Lemos

14 de setembro 2025 - 21:06
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O que há a fazer pela flotilha é agora: assumir uma posição e dar proteção diplomática. Espanha já o fez. Porque sabe que o silêncio é morte. Porque sabe que o mínimo que um país deve aos seus cidadãos é a defesa da vida. Portugal encolhe os ombros.

Se a Flotilha Cair, o Sangue Também é Nosso

Uma flotilha que enverga a bandeira portuguesa com ajuda humanitária foi atacada. Não leva armas. Não leva interesses obscuros. Leva gente. Portugueses que arriscam a vida para levar pão, medicamentos e dignidade. Os portugueses nunca tiveram medo do mar. Está nos ossos da nossa história, da epopeia que Camões eternizou. Mas hoje a grandeza não se mede em conquistas ou impérios: mede-se na coragem de três pessoas que, sem glória nem recompensa, levam pão e dignidade a quem morre de fome.

Porém, envergar a bandeira portuguesa, hoje, é um risco. Porque representa um alvo. Todos sabem que parte sozinha, ao abandono do seu país. Quem controla o céu sabe que aquela embarcação está desprotegida. Sabe que não haverá resposta diplomática.

O Estado português deixou claro, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, que não protegerá, não acompanhará, não se responsabilizará. Uma entrega da vida dos seus cidadãos em missão. Os drones que sobrevoam a embarcação são um aviso claro: será das primeiras a abater.

Se o pior acontecer, já sabemos o guião. Os governantes ainda têm fresco o fato e a gravata preta da tragédia do Elevador da Glória. Prontos a proferir meia dúzia de palavras envernizadas de “pesar”. Mas não nos enganemos: não lamentam. Da mesma forma que não lamentaram as mortes do elevador, não lamentam as mortes de Gaza, não lamentam nada que não atravesse os corredores do seu próprio interesse. O luto, para este governo, não é humanidade: é expediente.

O que havia a fazer pelo elevador era antes dos ocupantes morrerem esmagados, o mesmo se aplica aos incêndios. O que há a fazer pela flotilha é agora: assumir uma posição e dar proteção diplomática. Espanha já o fez. Porque sabe que o silêncio é morte. Porque sabe que o mínimo que um país deve aos seus cidadãos é a defesa da vida. Portugal encolhe os ombros.

O genocídio em Gaza é a vergonha do nosso tempo. A posição portuguesa, um espelho vergonhoso da nossa pequenez política

O genocídio em Gaza é a vergonha do nosso tempo. A posição portuguesa, um espelho vergonhoso da nossa pequenez política. Quem embarca leva esperança; quem se mantém na neutralidade veste-se de cobardia.

E não é isto sobre a esquerda contra direita. É sobre humanismo. É reconhecer que há um genocídio em curso, e que repetir chavões como “foi o Hamas que começou” é um insulto à verdade. Crianças morrem todos os dias. Famílias inteiras soterradas. Uma população esmagada entre escombros e indiferença.

Quantos vídeos de Gaza conseguimos ver até ao fim sem desviar os olhos? Quantos corpos mutilados suportamos antes de desligar o telemóvel? A diferença entre nós e quem embarca está aí: nós fazemos mais um scroll, eles mudam de vida, arriscando-a a cada segundo dentro daquela embarcação. Proteger quem se arrisca pela vida dos outros devia ser um reflexo, não um debate.

Se a flotilha for mortalmente atacada, se sangue português se misturar com as águas do oceano, não digam que não sabiam. Não digam que não podiam prever. Não digam que não tinham como agir. Porque podiam. Porque podem.

E para cúmulo, ainda há quem chame a isto “férias numa flotilha”. Então vão vocês! Vão dormir num convés à chuva! Sentir drones sobre a cabeça. Talvez assim percebam que não é turismo: é dignidade, é humanidade, é história. É viver sem saber se regressam ao país que os abandonou.

Não é geopolítica de sofá que importa. Não são chavões repetidos até à náusea de que “eles começaram”. Estão a morrer crianças. Todos os dias. Civis inocentes. É disto que se trata.

Precisamos de um governo que represente mais do que estatísticas. Precisamos de políticos com coração no sítio. Portugal deve escolher o lado certo da história AGORA. Porque o que está em causa não é apenas Gaza. É o lugar de Portugal no mundo e a nossa capacidade de dizer “não” ao genocídio. Bem como a vergonha de sermos cúmplices deste silêncio, cúmplices pelo abandono, cúmplices pela cobardia. Se a flotilha cair, não venham dizer que foi tragédia inesperada. Não venham chorar lágrimas de crocodilo em frente às câmaras, nem repitam frases ensaiadas. Porque não vos resta inocência alguma. Vocês sabiam. Vocês sabem.

E nós também.

Bruna Oliveira Lemos
Sobre o/a autor(a)

Bruna Oliveira Lemos

Natural de Guimarães. Professora de português.
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