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(…) ”Que emprega palavrões como palavras usuais”

Posso escrever putas no Esquerda.net? Não que costume, mas o Pessoa (aliás Álvaro de Campos) fê-lo há 100 anos, porque não eu?

Talvez porque a Porto Editora, esse bastião dos bons costumes, e quase monopólio dos manuais escolares, não goste. E assim temos no manual do 12º ano “Encontros”, uma versão truncada (não vou dizer censurada) da “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos.

A obra nem é obrigatória, na vasta obra de Pessoa e seus heterónimos havia outras escolhas, mas os autores do manual escolheram esta e ela aparece censurada no manual. Dizem que está a versão integral no “manual do professor”, dizem que assim os professores podem escolher se querem ou não trabalhar aqueles versos. Como disse Vasco Silva ao I: ” se queriam aquele poema não lhe viessem cortar as unhas”. E aqui fica não a Ode Triunfal, mas as estrofes completas, com as partes censuradas a itálico (com a recomendação da leitura integral):

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,

Roçai-vos por mim até ao espasmo!

Hilla! hilla! hilla-hô!

Dai-me gargalhadas em plena cara,

Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,

Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,

Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!

Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!

Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,

As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,

Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto

E os gestos que faz quando ninguém pode ver!

Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,

Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome

Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos

Em crispações absurdas em pleno meio das turbas

Nas ruas cheias de encontrões!

 

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,

Que emprega palavrões como palavras usuais,

Cujos filhos roubam às portas das mercearias

E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —

Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa

Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.

Maravilhosamente gente humana que vive como os cães

Que está abaixo de todos os sistemas morais,

Para quem nenhuma religião foi feita,

Nenhuma arte criada,

Nenhuma política destinada para eles!

Como eu vos amo a todos, porque sois assim,

Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,

Inatingíveis por todos os progressos,

Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

 

E qual é o problema desta censura? Qual era o problema de ao estudar “Os Lusíadas” no tempo da outra senhora ficar omitido o Canto IX, a famosa e sonhada “Ilha dos Amores”?

Em primeiro lugar obras integrais deixam de o ser. Em “Os Lusíadas” não era suposto o estudo integral, pois é uma obra extensa e muito complexa, mas na “Ode Triunfal” que sentido faz? e estão lá os buracos, como na imprensa submetida à censura prévia do Salazarismo. São as próprias palavras do poema: “Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,”

Além disso os jovens são menorizados, a justificação da Porto Editora é o abordar uma questão como a pedofilia nas aulas. São jovens de 17/18 anos, não podem abordar este problema? Não ouviram falar em pedofilia centenas de vezes nos noticiários? Não discutiram a questão entre pares?

Um manual escolar, antes de ser editado e de poder ser adotado em alguma escola tem que ser aprovado, isso agora é feito por entidades independentes, geralmente do meio universitário, neste caso a Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria, talvez por meio do seu departamento de Ciências da Linguagem. Pergunta-se se isto não foi visto nessa altura?

Não teremos a mesma questão noutros manuais? Noutros manuais de uma editora que é das poucas presentes no mercado português do livro escolar que nos últimos anos ficou dominado por três grupos?

Tudo o que mexe com Pessoa corre o risco de ser polémico, tudo o que tem a ver com ensino da literatura está condenado a sair dos muros da escola. Seria sinal de que há uma grande atenção à literatura em Portugal, infelizmente não é assim. A vaga de indignação não corresponde à presença da literatura na sociedade portuguesa. Será difícil comprar muitos dos clássicos da literatura portuguesa nas livrarias. Isso quando há livrarias. Essa é uma forma pior de censura.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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