O Governo ganhou em toda a linha, ao que parece. Enredou o PS numa negociação que foi uma farsa, deu-lhe linha e anzol para se meter nas duas condições que tornaram vagamente imperceptível a sua estratégia e depois deu o xeque ao rei. Só que isto coloca agora um problema, é que este Orçamento era um manifesto eleitoral, servia para ser exibido na campanha em janeiro e, se tem de ser aplicado, fica curto de verbas e de razões. Não tem dinheiro, o que é que não perceberam?
Tem promessas, criou altas expetativas, a fila à porta do Terreiro do Paço é enorme, as associações empresariais dizem com ar compungido que tem “bons sinais”, mas “falta de ambição”, ou seja, dá poucas verbas aos empresários-que-não-querem-interferência-do-Estado. É por isso que, prevenindo-se, o ministro carrega nas cativações e, pela calada, vai reduzindo as previsões de crescimento para metade: eram fantásticas na campanha eleitoral, são agora medíocres, a política salvífica não resulta.
É também por isso que o primeiro-ministro, homem ladino, lançou no congresso a sua bomba da guerra cultural contra a disciplina de Cidadania. O que interessa são as creches sem vagas ou os alunos sem professor? Que nada, é o programa de uma cadeira em que se ensina a constitucionalidade da não-discriminação. Naturalmente, a operação tem sucesso garantido: o cheguinha do governo, o CDS, embandeira em arco; o verdadeiro Chega amofina-se; o ministro fica incomodado, parece que não é nada com ele; mas os estrategas dizem o óbvio, se resultou com Trump e Bolsonaro, como não vai resultar aqui? Pois esta é uma expressão da palavra escolhida para este episódio de Um Pouco Mais de Azul: o primeiro-ministro, na aflição de ter um orçamento para cumprir, decidiu necear. A política laranja ficou neceárica. Desconfio que assim vai continuar e que disso se vão lembrar as almas caridosas que ainda acham que o PSD é uma barreira contra a extrema-direita.
Este texto é parte da intervenção de Francisco Louçã no podcast “Um pouco mais de azul”, onde também participam o jornalista Fernando Alves e a poeta Rita Taborda Duarte. O podcast completo aqui