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Quantos alunos vão começar o terceiro período sem aulas por falta de professores?

Normalidade não é ausência de adversidades, é boa política educativa, é preparação, é investimento, é professores a todas as disciplinas. No final do segundo período eram 30 mil alunos sem professor a pelo menos uma disciplina. E no próximo ano já serão cerca de 110 mil na mesma situação.

Enquanto os horrores da guerra concentram a atenção mediática e a nossa indignação, devemos ser capazes, sem desviar os olhos da Ucrânia, de não ignorar problemas que noutras circunstâncias ocupariam telejornais. Falo de temas tão importantes como a educação, em que temos a responsabilidade de fazer uma pergunta: será que sabemos o que passa nas escolas?

Será que sabemos o que passa nas escolas?

Em breve começará o último período do ano 2021/2022. Uma criança que esteja agora a acabar o primeiro ciclo, na melhor das hipóteses, terá memória de um primeiro ano diferente dos restantes e, na pior, não reconhecerá a cara da sua professora. Já um adolescente que termine o segundo ciclo nunca viu a cara de um único professor ou colega dentro de uma sala de aula. E as probabilidades de que um jovem do secundário tenha tido metade das experiências sociais que é suposto ter na sua idade, são imensas.

Por isso, quando perguntamos o que se passa nas escolas, a pandemia está no topo das preocupações. Durante os últimos anos, guiamos pela ciência e pela cautela, creio de que falo pela maioria de nós, as decisões sobre o encerramento e reabertura de escolas. Ainda que não estivessemos todos de acordo em relação ao investimento necessário para abrir as escolas em segurança - a trapalhada na contratação de assistentes operacionais é disso exemplo - era relativamente unânime que os danos do encerramento das escolas seriam mais duradouros, mais profundos e mais traumáticos do que os efeitos de uma pandemia controlada.

O mesmo apelo fazemos agora em relação às máscaras nas escolas: adotem-se as medidas necessárias de arejamento das salas e distanciamento, protejam-se os alunos mais vulneráveis, mas não se imponha a uma geração um presente sem rosto.

Estar de máscara na escola não é o mesmo que estar de máscara no centro comercial, porque no reverso do risco de contágio estão danos emocionais, mentais, de desenvolvimento e aprendizagem da fala, leitura e escrita

Com a maioria da população escolar vacinada, a decisão sobre a manutenção do uso de máscaras nas escolas não se pode reduzir a uma questão de RT e índice de transmissibilidade. Estar de máscara na escola não é o mesmo que estar de máscara no centro comercial, porque no reverso do risco de contágio estão danos emocionais, mentais, de desenvolvimento e aprendizagem da fala, leitura e escrita. Está a fadiga, a ansiedade e a falta de concentração, não só de alunos mas também de professores. E, sim, proteger a capacidade de aprender e o desenvolvimento saudável das crianças é mesmo uma questão de saúde e bem-estar.

Por isso, Filinto Lima chamou-lhe mordaça, não por não reconhecer a importância das máscaras, mas porque sabe que estas dificultam a comunicação entre professores e alunos. Por isso, a comunidade escolar sabe que o uso de máscara nas escolas não é um “pequeno esforço”. Pelo contrário, é um risco que deve ser bem avaliado, porque quanto mais tempo passa mais danos pode causar.

Com critérios científicos e de cautela, apelamos ao Governo que não trate deste assunto de forma leviana.

Até porque noutras matérias sabemos que esse comboio já partiu.

Quantos alunos vão começar o terceiro período sem aulas por falta de professores?

No final do segundo período eram 30 mil alunos sem professor a pelo menos uma disciplina. E no próximo ano já serão cerca de 110 mil na mesma situação, conforme um estudo realizado pela antiga diretora da Direção Geral de Estatísticas da Educação. A lista de disciplinas com falta de professores é cada vez maior: Português, Matemática, Biologia e Geologia, Física e Química, História, Geografia, Inglês, Filosofia, Informática. Só este ano, até ao mês de maio, serão 861 professores reformados e não há quem os substitua. O problema está à vista e os estudos são demolidores na dimensão da catástrofe anunciada. Ainda assim, pergunto, será que sabemos o que se passa nas escolas? Quantos alunos vão começar o terceiro período sem aulas por falta de professores?

O estudo do Pordata aponta como saída: baixar as qualificações dos professores, reduzir horas de apoio ao estudo e aumentar o número de alunos por turma. Como é que chegámos aqui? Porque o Governo tratou o problema de forma leviana.

Como é que se resolve no imediato? Permitam-me dar o exemplo de uma professora com quem falei ontem. Chama-se Cristina, mora em Almodôvar e todos os dias vai dar aulas a Mértola. São quase 100 quilómetros por dia e, nos dias que correm, pelo menos mais 40 euros por mês em combustível.

No debate do programa de Governo, o Sr. Primeiro Ministro, que sempre rejeitou que a chave para a falta de professores estava nos baixos salários e no custo das despesas, garantiu que a inflação que irá consumir esses mesmos salários é apenas transitória. Na altura, perguntei-lhe: quantos alunos é aceitável que fiquem transitoriamente sem aulas porque os professores não têm dinheiro para pagar as despesas de transporte ou habitação? E quanto tempo dura esta transição?

O mesmo que dizemos sobre as máscaras, aplica-se à existência de alunos sem aulas.

 

As escolas têm de regressar à normalidade. Normalidade não é ausência de adversidades, é boa política educativa, é preparação, é investimento, é professores a todas as disciplinas. Professores cuja cara os alunos conhecem. Normalidade será acolher nas nossas escolas todas as crianças ucranianas que fogem da guerra. E, mais um vez, o problema nunca será a sua chegada mas a capacidade do governo de dotar a escola de professores de português e recursos humanos para os acompanhar.

Não se trata de salvar o ano nem de pôr em marcha grandes epopeias. No que toca às escolas, pede-se apenas normalidade.

Declaração política do Bloco de Esquerda na Assembleia da República, a 13 de abril de 2022

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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