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Quanto vale menos 1% de défice?!

"As acções portuguesas e espanholas estão a registar as maiores subidas da Europa, levando os índices a registarem as maiores valorizações da sua história e a liderarem os ganhos das praças europeias", avança o Jornal de Negócios.

Habituámo-nos, por alguma motivo, a sentir uma espécie de tranquilidade ao ouvir este tipo de notícias. Um secreto alívio ao pensar que, pelo menos durante uns tempos, os nossos títulos agradam aos mercados e que, por isso, estaremos livres dos ataques especulativos. Aprendemos, mesmo que inconscientemente, que, se alguma coisa correr mal, os mercados viram-se para os países e exigem sacrifícios. Tudo é aceitável, menos uma diminuição das taxas de lucro.

No mesmo dia em que o PSI-20 ganha 10%, o Governo anuncia que o esforço de consolidação será mais duro - o défice terá que atingir os 7,3% já em 2010, em vez dos 8,3% inicialmente previstos. Para "poupar" estes 1600 milhões adicionais será necessário antecipar as medidas previstas no PEC, cortar investimento público e, muito provavelmente, aumentar impostos. Podemos contar com um aumento do IVA, com a criação de um novo imposto sobre os salários e também com uma taxa especial sobre o subsídio de natal.

Na mesma semana em que a bolsa "lidera os ganhos das praças europeias", os portugueses ficam a saber que vão receber menos ajuda em caso de desemprego, e vale a pena lembrar que apenas 60% dos desempregados têm acesso ao subsídio, pagar mais impostos sobre o seu trabalho e enfrentar bens de consumo mais caros.

O Governo decidiu ainda, numa altura em que o investimento privado se encontra em queda livre, cortar no investimento público. A receita do Governo para sair da crise, recomendada por nomes como Vítor Constâncio, é só uma: mais crise, mais desemprego e menos salários!

No momento de estagnação económica que atravessamos, o investimento público torna-se condição essencial para introduzir dinamismo na economia, para criar emprego, aumentar receitas fiscais e diminuir os gastos com prestações sociais. Pelo contrário, menos investimento implica mais desemprego e, consequentemente, um aumento da pressão para que desçam os salários.

As medidas do PEC que Sócrates quer implementar, tal como os outros PEC por essa Europa fora, são recessivas e em nada irão contribuir para o crescimento da economia, pelo contrário, vão atrasar a recuperação económica por anos.

Façamos as contas. Se tudo correr como o planeado, até podemos acabar com menos 2%, 3% de défice, mas quanto é que vale cada 1% de défice em número de desempregados, em perda no valor do subsídio de desemprego, de poder de compra dos trabalhadores, de salários, em aumento da pobreza e das tensões sociais? Sabemos quanto vamos pagar!

Vejamos agora, por outro lado, quanto vale 1% de défice para os lucros das grandes empresas, bancos e instituições financeiras, para os prémios e salários milionários dos gestores, para os lucros da bolsa e dos mercados?! Sabemos quanto (não) vão pagar, e a factura não é igual para todos.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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