Quando a rua rouba a humanidade

porEduardo Couto

07 de dezembro 2025 - 18:33
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A dignidade não pode depender do sítio onde se dorme. Se aceitarmos que há pessoas que podem ser deixadas para trás, estamos a encolher o país para todos.

Há momentos que expõem, de forma cruel, o quanto falhamos enquanto país com quem vive na rua. Nos últimos meses vimos dois episódios diferentes que deixam à mostra a mesma ferida: os sem-abrigo continuam a ser o alvo preferencial de quem quer exercer poder sobre alguém que não tem maneira de se defender. E, para piorar, até quem lhes estende a mão acaba por ser atacado.

Num caso, dois agentes da PSP foram detidos por suspeitas de tortura dentro de uma esquadra. Não vale a pena enfeitar palavras. As acusações falam de agressões, humilhações e violência sexual contra homens que estavam completamente indefesos. O que interessa aqui não são as notas oficiais a tentar conter danos; o que importa é que isto aconteceu num espaço que pertence ao Estado, realizado por pessoas que representam o Estado, contra seres humanos que já tinham perdido quase tudo. E só é possível porque há vidas que, aos olhos de muitos, simplesmente não pesam.

No Porto, noutro extremo desta mesma realidade, voluntárias que distribuíam comida foram atacadas por neonazis. Não contentes em insultar e empurrar, acusaram-nas de ajudar quem “não merece”, como se alimentar pessoas fosse algum tipo de afronta aos valores “nacionalistas”. O que assusta não é apenas o ataque, é perceber que estes grupos já se sentem à vontade para agir assim em plena rua, contra mulheres, no meio de uma acção solidária. E fazem-no porque sentem que houve sectores da sociedade que lhes deram margem.

Estes dois episódios não têm relação directa nem partilham protagonistas. Mas mostram um padrão que anda a ser empurrado para o lado há demasiado tempo. Quem vive na rua é sempre o fácil bode expiatório para a violência: seja a de extremistas que se alimentam do ódio, seja de alguns criminosos que vestem farda e falham redondamente.

O Estado falhou — na formação, na supervisão, na capacidade de garantir que quem veste uma farda sabe o que isso significa. Trata-se simplesmente de exigir que a autoridade pública esteja ao lado de quem precisa dela, e nunca no lugar de quem agride. O Estado falha ainda mais quando não criminaliza nem julga os grupos neonazis que violam todo e qualquer princípio constitucional.

É por isso que estes episódios não podem ser discutidos como se vivessem em caixas separadas. Não é para os misturar, é para perceber o que eles dizem do país em que esta gente nos quer tornar: uma sociedade que empurra os sem-abrigo para fora de tudo, como se fossem um grupo à parte, entregue à sorte, à violência e à indiferença de quem acha que o problema é ajudar em vez de olhar para o que leva alguém a dormir na rua.

Pessoas em situação de sem-abrigo não têm voz, não têm poder, não vivem com plenos direitos democráticos. Vivem num limbo onde tudo lhes pode acontecer. E quando até voluntários começam a ser atacados, fica evidente que até a solidariedade se tornou um alvo a abater para os sectores reaccionários da nossa sociedade.

Se o Estado quer realmente fazer algo a sério, tem de agir nos dois lados: afastar e responsabilizar quem abusa do poder dentro das instituições e, ao mesmo tempo, enfrentar sem hesitações a violência extremista que se começa a sentir à vontade.

Enquanto os cidadãos que vivem na rua forem tratados assim, a violência vai continuar a cair sobre eles. E sobre quem tenta protegê-los. A dignidade não pode depender do sítio onde se dorme, nem das circunstâncias que empurraram alguém para essa situação. Se aceitarmos que há pessoas que podem ser deixadas para trás, estamos a encolher o país para todos.

Chegou o momento de parar de varrer isto para debaixo do tapete. Estes episódios não aparecem do nada — nascem da indiferença que se instalou acompanhada de uma visão política baseada na indiferença que promove o ódio. E enquanto a indiferença mandar, a violência não parará de crescer. Temos o dever cívico de exigir um ponto final a estes ultrajes, sob pena de se normalizarem e, aí, ser tarde demais.

Artigo publicado em Público P3 a 27 de novembro de 2025

Eduardo Couto
Sobre o/a autor(a)

Eduardo Couto

Educador Social e ativista LGBTQIA+. Dirigente do Bloco de Esquerda
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