Quando o ódio à esquerda se sobrepõe à verdade

porMaria Escaja

04 de março 2022 - 15:52
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O Bloco de Esquerda não chegou agora às críticas aos imperialismos nem à denúncia do imperialismo russo. Há muito que condena o crescente autoritarismo do autocrata Putin e as suas ligações à extrema-direita, e que denuncia e expõe os perigos dos vistos gold e dos offshores.

Nos últimos dias assistimos a uma escalada de ódio ao Bloco de Esquerda, tanto nas redes sociais como na comunicação social. A instrumentalização de uma guerra e de posições sobre as soluções do conflito é, no mínimo, lamentável.

A direita, que tinha os seus ódios guardados e recalcados, tenta agora diabolizar uma esquerda, instrumentalizando uma guerra, e criando uma campanha de desinformação e meias verdades que em nada contribui para a busca de soluções para o conflito ou para a solidarização com um povo invadido.

O Bloco de Esquerda não chegou agora às críticas aos imperialismos nem à denúncia do imperialismo russo. Há muito que condena o crescente autoritarismo do autocrata Putin e as suas ligações à extrema-direita, e que denuncia e expõe os perigos dos vistos gold e dos offshores, usados pelos oligarcas russos para ultrapassarem as sanções impostas pela UE - União Europeia. Condenou desde o início a invasão da Ucrânia por Putin, o Bloco defendeu sanções contra a oligarquia russa, promoveu medidas diplomáticas de apelo à paz e divulgou e participou nas manifestações de solidariedade com o povo ucraniano.

Apesar disso, informações falsas e argumentos distorcidos são repetidas por comentadores de direita e em alguns meios de comunicação social.

Tenta-se criar uma narrativa caluniosa sobre um voto contra ou de abstenção na resolução de condenação da invasão russa e apoio à Ucrânia. Foi a primeira resolução de resposta à guerra, e contou com o voto favorável do Bloco. Como estes documentos são constituídos por vários pontos que podem ser votados separadamente, em 52 pontos o Bloco votou contra 4 (21, 22, 25 e 27) da resolução “porque se opõe e oporá à tentativa da direita de aproveitar a justa indignação com esta guerra para lançar uma corrida ao armamento e uma escalada militar numa região de enorme sensibilidade, com consequências imprevisíveis. Opusemo-nos e opor-nos-emos a que esta guerra seja usada como pretexto para um alargamento da NATO, uma organização que nunca serviu a paz e é historicamente responsável por inúmeras ocupações, conflitos armados e manobras de desestabilização, no Iraque, na Jugoslávia, no Afeganistão, entre muitos outros”, como se pode ler na declaração de voto dos eurodeputados bloquistas.

Procura-se ainda confundir esta condenação da invasão ucraniana com uma outra votação no Parlamento Europeu no dia 14 de Fevereiro de 2022, sobre um programa de assistência macrofinanceira à Ucrânia, na qual o Bloco de Esquerda e o PCP se abstiveram. Vamos por partes: primeiro que tudo, devemos lembrar que esta votação foi anterior à invasão da Ucrânia por Putin, sendo portanto necessário fazer um difícil exercício de ginástica para a associar a uma tomada de posição sobre o conflito. Em segundo, não se pode fazer uma análise séria desta votação sem ler o documento ou desconhecendo o contexto deste apoio. Dada a confusão e numerosos equívocos sobre o tópico, resumo: o programa remonta a 2014 e decorreu no quadro de um acordo de associação. Desde Junho de 2020 que o Fundo Monetário Internacional está a impor programas de “assistência” com condições de austeridade de que todos teremos memória. Esta assistência à Ucrânia, o tal documento votado dia 14 de Fevereiro, implica o cumprimento de condições impostas pelo FMI, entre elas a “implementação satisfatória” do programa do FMI para a libertação da primeira tranche e a continuidade dessa satisfação para o desbloqueio da segunda.

Não, o Bloco não se absteve num apoio de emergência à Ucrânia, mas sim num programa que pretende perpetuar políticas ultraliberais com resultados desastrosos, que não têm ajudado o país a reverter a situação de crise económica, social e política. Ninguém estará já esquecido do sufoco das medidas de austeridade que nos foram impostas na última década, e nunca me cruzei com ninguém que gostasse de regressar a elas.

Em suma: nas palavras de José Gusmão, eurodeputado do Bloco de Esquerda presente naquela votação, “o Bloco teve a posição que tem tido sempre: apoiar a assistência financeira a países em dificuldades, opondo-se às condições associadas a essa assistência, que constituem uma agenda política destrutiva, ao arrepio das deliberações democráticas desses países”.

Não se deixem enganar pelas mentiras da direita, cuja principal preocupação é vilipendiar a esquerda pela paz e não a resolução rápida e com o menor número de fatalidades possível desta guerra - a paz não favorece quem prioriza o lucro. A falsa indignação com as posições de partidos de esquerda pouco tem que ver com a aflição da guerra, mas sim com a já velha guerra do capital contra quem luta por condições dignas e defende a justiça social. As deturpações não colam.

Todos os imperialismos são condenáveis, tenham sede em Washington ou em Moscovo. A Rússia deve retirar todas as suas tropas do território ucraniano e regressar à via diplomática. O único caminho que podemos aceitar é o da paz, que protege os povos da Europa.

Maria Escaja
Sobre o/a autor(a)

Maria Escaja

Deputada municipal do Bloco de Esquerda por Lisboa
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