Quando o ano é novo e os problemas são velhos

porMiguel Martins

25 de janeiro 2026 - 21:06
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O primeiro-ministro pode trazer discursos motivacionais, tal como o Executivo camarário bem pode apostar em iluminações de Natal. No entanto, as luzes não duram o ano inteiro e não há palavras que resolvam os problemas do país.

Há palavras e expressões proverbiais que bem conhecemos e, nesta altura do ano, é prática generalizada utilizá-las. Entre desejos de feliz Natal, uma das frases mais badaladas costuma ser a de “ano novo, vida nova”. Uma expressão simples, que espelha a vontade de mudança. Se, de um ponto de vista meramente pessoal, esta mensagem é muitas vezes aplicada, já no campo político deixa muito a desejar. O ano pode ser novo, mas os problemas são velhos e conhecidos de todos nós.

Em Barcelos, o ano de 2026 será marcado por várias questões. Ao nível da mobilidade, continuaremos a ter um concelho em que as filas de trânsito se vão acumulando e a cada dia são perdidos largos minutos em deslocações que deveriam ser breves. 2026 será também mais um ano em que o custo do serviço da água e do saneamento será sentido no final de cada mês, com um valor que sai das nossas contas e vai diretamente para a carteira de privados.

Entre anúncios e promessas futuras, vemos também que a construção do novo Hospital será, uma vez mais, adiada. Como se soube há cerca de um mês, aquando da discussão do Orçamento do Estado, o Governo não atribuiu qualquer verba para este projeto. À semelhança de Governos anteriores, o compromisso é reafirmado e as promessas são renovadas, mas os barcelenses continuam na fila de espera, sem um novo Hospital.

Refira-se, ainda, que também em espera ou em atraso estão várias obras importantes no município. A título de exemplo, veja-se o que se passa com o mercado municipal, fechado desde 2020 e que, ao que tudo indica, não será reaberto em 2026.

Ao nível nacional, 2026 será também marcado por discussões importantes. O ano irá começar com uma eleição presidencial que será fundamental para o país. As informações que são transmitidas por diversas sondagens e estudos de opinião são preocupantes. Sejam qual forem os resultados desta eleição, temo que virão a ser evidenciados dois aspetos centrais: o reforço da atual maioria de direita no país, por um lado, e um campo de esquerda em queda, por outro. Seja qual for o cenário, é certo que, à esquerda, são várias as reflexões a serem feitas e existe uma necessidade de reinvenção, de forma a ser capaz de responder às necessidades do país e da população.

Uma outra questão será a discussão em torno da revisão do Código do Trabalho. Se a Greve Geral, que aconteceu no passado dia 11 de dezembro, foi um momento fundamental para o país e mobilizou dezenas de milhares em todo o país, configurando uma assinalável derrota do Governo, é certo que o assunto não está encerrado. Será fundamental que a pressão contra a proposta do Governo se mantenha. As alterações ao código laboral são tenebrosas e merecem a oposição frontal de todas e todos nós. Veremos o que irá acontecer nas negociações que irão acontecer entre Governo e sindicatos, mas é certo que quem trabalha não poderá baixar os braços.

Deixo, ainda, uma última nota. O genocídio em Gaza continua. Israel continua a matar e a destruir a vida do povo palestiniano, com o apoio dos Estados Unidos da América e de países europeus. Enquanto, por todo o mundo, milhões se unem e se juntam ao movimento pela paz, apelando ao fim do genocídio, o Governo português permanece em silêncio face a estes crimes. Que no próximo ano continuemos a ser cada vez mais, de forma a parar o genocídio e a parar com o sofrimento do povo palestiniano.

Em suma, e retomando o texto, o primeiro-ministro pode trazer discursos motivacionais, tal como o Executivo camarário bem pode apostar em iluminações de Natal. No entanto, as luzes não duram o ano inteiro e não há palavras que resolvam os problemas do país. Em Barcelos e no país, precisamos de soluções, não de distrações. Bom ano!

Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 31 de dezembro de 2025

Miguel Martins
Sobre o/a autor(a)

Miguel Martins

Sociólogo. Mestre em Geografia. Estudante na Universidade do Minho
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