Desde a sua criação, em 2016, que as provas de aferição aplicadas aos 2.º, 5.º e 8.º anos levantam muitas questões sobre a sua pertinência e objectivos quanto ao seu alcance pedagógico. Terá sido uma espécie de moeda de troca pelo facto de se ter posto um fim aos exames do 4.º ano de má memória.
Desde então, ano após ano, os resultados pioram e as águas comentadeiras habituais agitam-se para se evaporarem até ao ano seguinte e a “tragédia” repetir-se e voltar a dar que falar. No entanto, pouco se lê ou ouve sobre a pertinência das provas de aferição, concebidas em moldes muito semelhante aos dos exames nacionais, nem se faz a análise dos contextos em que se realizam ou dos custos que acarretam.
Considerar esta prova aplicada a todos os alunos como pertinente deveria obedecer a critérios pedagógicos validados criteriosamente. Onde estão? Mesmo o facto de se devolver aos alunos uma suposta correcção onde se indicam os pontos fortes e fracos de cada um, em que é que isso contribui para, no quotidiano escolar e até familiar, a alteração dos contextos que estão na origem desses resultados?
Aos contextos tais como turmas grandes, diversidade socio-cultural, a iliteracia digital, só para citar alguns, acrescentam-se os níveis de complexificação do sistema de avaliação designado por provas aferidas, agora em modo digital, porque têm reflexos evidentes nos resultados.
O sistema de avaliação por exames ou provas consiste na realização de prova nacional por todos os alunos ao mesmo tempo, garantindo o sigilo dos questionários, mobilizando recursos humanos até de fora da escola (são as forças de segurança que transportam as provas de um lado para o outro, embora os professores correctores depois as transportem por si próprios). É um sistema oneroso e pesado em termos de preparação logística: reunião geral obrigatória de professores, preparação de salas, guião de instruções detalhado ao segundo e à vírgula, burocracia adjacente como a declaração de autoverificação do aluno em como não leva dispositivos electrónicos para o exame, ajustes nas campainhas com referência ao tempo que cada prova dura (a de Geometria Descritiva pode durar 4 horas) e por aí adiante. Em termos de recursos humanos, a máquina também é pesada: professores correctores, professores vigilantes, professores coadjuvantes, assistentes operacionais, forças de segurança, professores destacados para o agrupamento de exames. Todos recrutados “voluntariamente”. Isto para não falar da impressão das provas ou dos honorários e cargos dos intocáveis elementos do Instituto de Avaliação Educativa, IP, que tudo concebem e aplicam, autonomizado do Ministério da Educação em 2013, no âmbito de uma suposta restruturação, sucedendo ao Gabinete de Avaliação Educacional do ME, e já, agora, pouco dado a prestação de contas.
Por último, a obsessão pela digitalização dos processos apresentada como uma forma de aliviar o sistema oneroso e pesado, é uma oportunidade de negócio do sector privado às custas do sector público. A plataforma Intuitivo é mais uma das dezenas aquisições do Ministério da Educação, na tentativa de, começando pelas provas de aferição, conseguir generalizar as todas provas e exames, na vã esperança de diminuir os custos dos exames. Poupar-se-á por um lado o que se gasta por outro. Quanto custou a plataforma Intuitivo? Quando custará a ideia absurda de passar todas as provas e exames para o digital? E as actualizações? E os conflitos, vulgo bugs?... A lista de encargos pode ser infinita e até intencional. A cada problema corresponderá um valor para a resolução. Além de que os professores de informática passam a ser técnicos gratuitos do serviço Intuitivo e das outras plataformas, em todas as escolas, e não dispensa os aqueles que as elaboram e as corrigem, agora em contextos de elaboração e correcção ainda mais complexos.
No caso específico da prova de aferição, mesmo não contando para nota gera, ainda assim, ansiedade, sobretudo nos alunos mais pequenos, mas também nos professores, que passam grande parte do seu tempo a treinar para a prova em vez de ensinar. Em 2023 a ansiedade passou (ainda mais) também para os directores e suas equipas e para os professores de informática, os “apaga fogos” nomeados voluntaria e graciosamente para a tarefa ciclópica de disponibilizar e preparar os computadores para todos os alunos. No dia e na hora da realização da provas digitais, as palavras passe não estavam corretas, apresentavam várias incompatibilidades (bugs) e foi necessário reiniciar os computadores, em alguns casos mais do que uma vez.
Tudo isto somado e sendo já do conhecimento público, há ainda quem se admire com os resultados? Há, porque falham rotundamente na análise uma vez que não invocam os contextos em que os alunos têm de realizar as provas e os exames nacionais. Este ano já foi testado em algumas escolas-piloto a realização de exames em formato digital.
O Ministério da Educação deve saber o que os alunos aprendem e o que os professores ensinam, ou seja, tem de avaliar o sistema educativo no seu todo, idealmente para definir e corrigir as políticas educativas. A questão é saber se estas provas são para cumprir este desígnio. Se assim fosse, não seria necessário inquirir todo o universo, tal como o fazem as instâncias internacionais que aplicam este tipo de instrumentos, tornando de facto o processo menos pesado e oneroso.
O desastre dispendioso, inútil e fatal a vários níveis que foi a aplicação digital das provas de aferição ficou visível com a recente divulgação dos resultados, quase meio ano depois da sua realização. O exercício seguinte, por parte de quem decide e de quem tem a responsabilidade de aplicar provas e exames seria o da reflexão e da autocrítica, considerando os contextos em que as comunidades educativas se inscrevem e a consciência de que o virtual resolve muito pouco no que à Educação diz respeito e a pandemia demonstrou, e, assim, questionar a pertinência da sua existência. Isto se estes atores fossem dados a tal. Como o não são, para o ano haverá mais e o pesadelo voltará a repetir-se.