Promessas leva-as o vento

porJosé Joaquim Ferreira dos Santos

17 de janeiro 2025 - 15:35
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Esta é a realidade do governo da AD, a destruição dos serviços públicos, e a inadmissível submissão às posições da extrema-direita. Será contra este estado de coisas que teremos que construir unidade na luta com todos os que assim quiserem, pela dignidade humana e pela Paz.

Durante a campanha eleitoral para as Legislativas assistimos a um enunciado de promessas feitas pela AD, prometendo tudo a todos, sem se preocupar com a origem dos fundos para cobrir tal chorrilho de promessas, nem se estas eram possíveis.

Como a aliança PSD/CDS não logrou uma maioria absoluta os resultados obrigaram a negociar com a oposição a fim de permitir a passagem do Orçamento de Estado para 2025.

As oposições à esquerda do PS declararam, desde logo, que não suportariam o OE, por opções totalmente contrárias aos seus programas, e que votariam contra. Restavam ao governo eleito, mas minoritário, o PS e a extrema-direita para negociar.

As peripécias da negociação tiveram de tudo: as controvérsias sobre a baixa de impostos para as grandes empresas; o IRS Jovem; as atitudes da extrema-direita que tocavam a chantagem e a falta de verticalidade do governo, que a todo o custo procurava apoio para o seu Orçamento.

O Orçamento de Estado para 2025 acabou por ser aprovado com a abstenção do PS e com os votos contra dos grupos à sua esquerda e com os votos contra dos amuados da extrema-direita.

Entretanto, o Presidente da Republica, sempre tão prolífero nas suas declarações manteve-se relativamente calado, apenas opinando acerca da necessidade de aprovar um orçamento, questão que anteriormente não colocou, aquando do governo de António Costa, parecendo demasiado preocupado com a possibilidade de novas eleições.

As constantes provocações da extrema-direita tiveram como consequência a aceitação pelo governo de algumas das suas bandeiras, como a responsabilização dos migrantes na insegurança que só eles vislumbram, a necessidade de apoiar financeiramente as forças de segurança, sem que uma idêntica preocupação exista para com os restantes trabalhadores.

Mas o mais grave de tudo tem sido a forma como vários Ministérios têm encarado as diversas substituições de dirigentes e assessores de serviços, de uma forma arrogante e sem hesitações na substituição de dirigentes com reconhecida idoneidade, por outros que lhes são fieis. Aconteceu na Educação, na Cultura e especialmente na Saúde.

Num jantar com jornalistas estrangeiros, Marcelo Rebelo de Sousa, mais liberto da situação de silêncio a que se remetera, teve o desplante de apodar de rural o procedimento do primeiro-ministro, Luís Monterroso. As relações entre ambos deterioraram-se um pouco e não beneficiaram com os elogios de Marcelo a António Costa, entretanto designado para a presidência do Conselho da Europa.

O escândalo provocado pela greve dos trabalhadores do INEM e pelo encolher de ombros da Ministra da tutela, que teve como consequência onze mortes, aliado à manifesta incapacidade em organizar o SNS, e da constante entrega de serviços à indústria da saúde privada, não impediram o primeiro-ministro de manter o apoio à ministra.

O Ministério da Educação, que se apresentou com a promessa de ultrapassar os problemas da falta de professores, não se mostra capaz de o fazer e segundo os sindicatos, a situação é hoje pior do que foi nos anos anteriores. As invenções sobre professores aposentados a ajudar nas escolas só foi mais um fiasco.

A Ministra da Cultura vem a terreiro com as mudanças de direcção de diversas instituições sob a sua tutela, sem atender ao interesse público, mas aos interesses partidários, apenas reitera os factos de que acusaram os governos anteriores.

O governo da AD tem-se mostrado muito preocupado em se colar às posições defendidas pela extrema-direita, nomeadamente em relação aos migrantes, não hesitando em acolher essas posições, não só fechando os olhos à brutalidade xenófoba, à agressividade policial contra pessoas racializadas, como no caso da morte de Odair, desenvolvendo acções policiais intimidatórias que não se compaginam com as necessidades do nosso país em termos de falta de mão-de-obra e com as promessas de acolhimento de cidadãos de outros países e de outras etnias, em busca de paz e de trabalho.

Os relatórios das autoridades sobre a criminalidade afirmam que as percepções do governo sobre a relação entre migrantes e insegurança e criminalidade são falsas e que as acções policiais a que vimos assistindo, como no Martim Moniz, em Lisboa, são meras acções de propaganda de caracter racista para o PSD tentar subir nas ondagens à custa de uma agenda xenófoba e racista da extrema-direita.

Há também a controversa construção do novo aeroporto de Lisboa que seria construído sem custos para o erário público, mas que afinal custará dinheiro aos bolsos dos contribuintes, apesar do alargamento do período de concessão à empresa privada.

Onde para a verdade? Onde esconderam a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que dizem defender?

Esta é a realidade do governo da AD, a destruição dos serviços públicos, e a inadmissível submissão às posições da extrema-direita, contrariando as promessas feitas.

Será contra este estado de coisas que teremos que construir unidade na luta com todos os que assim quiserem, pela dignidade humana e pela Paz.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Sobre o/a autor(a)

José Joaquim Ferreira dos Santos

Reformado. Ativista do Bloco de Esquerda em Matosinhos. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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