Proletariado e interseccionalidade: uma hipótese

porManuel Afonso

04 de setembro 2023 - 18:28
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No século xxi «formação do proletariado enquanto classe» tem de passar por aí. Não por uma soma de lutas paralelas, mas pela sua integração num programa de classe, que permita disputar as grandes clivagens políticas do nosso século para saídas socialistas.

A expressão «proletariado» evoca algumas imagens. Gente em fábricas, homens normalmente, de aspeto estereotipado, eventualmente rudes, de gestos mecânicos, roupas e semblantes cinzentões. Mais do que indivíduos, uma massa informe; mais do que um sujeito coletivo, gente que só trabalha. Do estereótipo presumem-se os seus interesses e preocupações: económicos, laborais, quando muito, sociais. A produção, o emprego, o salário. Nada mais.

a classe trabalhadora, «os trabalhadores», são — somos — nomeados sempre como um «eles», outrem, um interior que só é nomeado de fora, que não se nomeia. E é assim, tantas vezes, mesmo quando é quem trabalha quem (se) enuncia. O proletariado perdeu o seu lugar de fala

Mais estranho: a classe trabalhadora, «os trabalhadores», são — somos — nomeados sempre como um «eles», outrem, um interior que só é nomeado de fora, que não se nomeia. E é assim, tantas vezes, mesmo quando é quem trabalha quem (se) enuncia. O proletariado perdeu o seu lugar de fala. Perdemo-lo, digo.

A consequência, entre outras, é parte da própria esquerda reduzir a classe trabalhadora a uma espécie de «bicho que trabalha». Assumindo que, para além do fim do mês, nada lhe (nos) interessa; que para além do sindicato e da greve, nenhuma luta é proletária; que, excetuando o emprego e o salário, as restantes bandeiras são «interclassistas» per se. Uma classe sem género nem raça, sem geografia nem idade, sem poesia nem festa, sem ecologia nem lazer. Como é comum em quem sofre violência, internalizámos a visão que o opressor tem de nós mesmos. O trabalhador-padrão, unilateral, definido apenas pelo que faz dentro das quatro paredes da empresa, invisível fora desse contexto, é o que o patrão vê e idealiza. Não pode ser assim que nos vemos.

Esta autoperceção tão redutora talvez resulte de uma fase histórica de tantas derrotas, no final no curto-longo século xx. Como Sísifo, rolámos colina abaixo e chegámos cá ao fundo sem memória de quem somos. «Os mais velhos esqueceram e os mais novos ainda não aprenderam».

Quem e o quê faz o proletariado?

Tudo muda: nos EUA os índices de sindicalização e de greves sobem como não se via há muito. Em diversos países, novos setores organizam-se: nas plataformas digitais, nos armazéns da Amazon, nos call-centers e na fast food. Surgiram também greves feministas — imagine-se. Protestos antirracistas e climáticos de gente que se opõe aos 1% que dominam o mundo. O lado de lá pode de novo ser nomeado: a classe dos bilionários, os exploradores, o capitalismo. Falta agora nomearmo-nos, construirmo-nos. Quem somos, então, classe trabalhadora?

O tema nunca foi simples. Nunca fomos uma classe plana, linear, monocolor — isso não existe.

Mesmo na certidão de nascimento — o Manifesto Comunista — há aparentes contradições. Termina o primeiro capítulo, «Burgueses e proletários», com a seguinte afirmação: a burguesia «produz, antes de mais, o seu próprio coveiro», o proletariado. Contudo, a abrir o capítulo seguinte, «Comunistas e proletários», é-nos dito que o primeiro interesse dos comunistas é a «formação do proletariado enquanto classe». Que trapalhada!

Cabe aos comunistas formar o que já a burguesia produziu, o «coveiro» do capital, a classe proletária? Ou bem que a burguesia, ao retirar a terra aos camponeses e os forçar a aceitar trabalho assalariado para sobreviver, criou o proletariado ou bem que caberia aos comunistas formar esta nova classe. Os dois não pode ser. Como se desata este nó?

Uma das premissas da dialética é que tudo é relativo — sim, isto diz-nos o marxismo, assim como a ciência em geral. Desata-se este nó entendendo em relação a quê falamos em cada uma destas afirmações contraditórias. Mesmo os autores do Manifesto nos deram pistas quando distinguiram «a classe em si» da «classe para si» ou quando afirmaram (Engels) que «o proletariado, tomado em si mesmo, é apenas matéria-prima para a exploração capitalista».

uma coisa é a noção sociológica de proletariado, outra é a sua dimensão política

Ou seja: uma coisa é a noção sociológica de proletariado, outra é a sua dimensão política. A primeira, distingue o proletariado como a classe que tem de vender a sua força de trabalho a um patrão para subsistir. Já a dimensão política é mais complexa, histórica, contingente: o proletariado forma-se enquanto classe no enfrentamento com a classe dominante, pela sua experiência e contexto, ao tomar consciência de si vendo-se no espelho da classe antagonista.

Essa (auto)construção não acontece espontaneamente, ao invés da dimensão sociológica, que é imposta de fora. A «formação do proletariado enquanto classe» é «tarefa dos comunistas» — é uma tarefa política, que depende da ação consciente de militantes anticapitalistas. Para lá da sua realidade sociológica, que por si mesma, nada contém de emancipatório, a classe trabalhadora só existe mediante uma política de classe — de si, para si, por si — uma política de esquerda consequente, socialista. Sem isso, somos apenas massa amorfa cujo sangue é sorvido pelos donos disto tudo.

Outros contributos marxistas para o enigma proletário

Mais tarde, outros autores desenvolveram a questão, como o historiador britânico E. P. Thompson no seu clássico (não traduzido entre nós!) The Making of the english working class, que versa sobre a formação da classe trabalhadora inglesa no calor das suas próprias lutas. Mas também feministas, como a coautora do manifesto Feminismo para os 99%, Cinzia Aruzza, pensaram deste prisma fenómenos como as greves feministas internacionais:

«O movimento feminista está se tornando cada vez mais um processo de formação de uma subjetividade de classe com características específicas: imediatamente antiliberal, internacionalista, antirracista, obviamente feminista e tendencialmente anticapitalista, em excesso e em tensão com respeito às instituições tradicionais da esquerda e suas práticas.»1

Na mesma tradição, e sob influência das crescentes lutas ecológicas, há quem fale de um «proletariado ambiental», uma classe definida também pela sua ecologia humana — a despossessão dos meios de subsistência naturais —, mas sobretudo pelo seu antagonismo com o Capital experimentado no terreno ambiental. No combate por terras e espaços naturais, expropriados ou contaminados; nas mobilizações contra a insalubridade causada pela grande indústria; na luta pela sobrevivência perante fenómenos climáticos extremos — tão atravessada por linhas de raça e classe, como vimos aquando do furacão Katrina em Nova Orleães. Também esta tradição vem de longe: um dos trabalhos seminais do socialismo marxista, A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra, também define a nossa classe pelo seu contexto ambiental. Nessa obra, Engels constata que o ambiente do proletariado é constituído, ele mesmo, por múltiplos antagonismos com a classe dominante, que o expropria das condições ecológicas para uma reprodução saudável das suas forças, saúde e bem-estar.

A fase neoliberal do capitalismo caracteriza-se por curto-circuitar os grandes ciclos de reprodução da vida, sejam os cuidados, sejam os ciclos ecológicos, e assim cria uma intersecção mais entre lutas — feministas e climática — em que o proletariado é obrigado a fazer política

Ainda no âmbito do marxismo feminista, a teoria da reprodução social valoriza o trabalho reprodutivo e de cuidados como uma outra faceta da dominação capitalista e, logo, da luta de classes, acrescenta uma dimensão a esta visão multifacetada. Sobretudo, se pensarmos a reprodução do trabalho na sua faceta mais alargada, nas dimensões social e biológica, mas também ecológica. A fase neoliberal do capitalismo caracteriza-se por curto-circuitar os grandes ciclos de reprodução da vida, sejam os cuidados, sejam os ciclos ecológicos, e assim cria uma intersecção mais entre lutas — feministas e climática — em que o proletariado é obrigado a fazer política.

Por um ecossocialismo proletário e interseccional

Enormes consequências políticas resultam destas propostas. A noção de políticas de classe deixa de ser bidimensional, ganha novas facetas e permite novas abordagens. Entre outras coisas, permite ultrapassar a ideia de «lutas paralelas», em que se somam movimentos — o antirracista, o feminista, o climático… e o da classe trabalhadora — numa unidade bem-intencionada (na melhor das hipóteses). Já não se trata de somar, mas de sintetizar. Mais do que alianças (que serão sempre necessárias) fala-se dar uma perspetiva proletária a cada um desses enfrentamentos — sendo a classe que vive do seu trabalho quem funde esses combates na luta por uma vida justa.

Podemos assim partir do que Angela Davis chamou a «interseccionalidade das lutas» (tão longe do debate das meras identidades que tantos associam ao termo) para pensar o proletariado como classe interseccional. A nossa classe como sujeito coletivo que ganha consciência de si mesmo no confronto político com as várias facetas da dominação capitalista — económica, de género, de raça, de orientação sexual, ambiental, etc. — não meramente sobrepostas, mas cruzando-se e misturadas.

A organização no local de trabalho não se tem de remeter à luta por salário; as organizações de quem trabalha não se podem cingir à esfera da produção

Nada disto exclui o que nos ensinaram séculos de combate socialista: a esfera da produção, o local de trabalho e (até certo ponto) os sindicatos mantêm-se como espaços estratégicos de disputa. Provavelmente os mais determinantes. Não se trata de abandonar as velhas formas, mas de as preencher com novos conteúdos. A organização no local de trabalho não se tem de remeter à luta por salário; as organizações de quem trabalha não se podem cingir à esfera da produção.

Num mundo em chamas, em que a reprodução das condições ecológicas para a subsistência da espécie humana — no futuro — e dos seus segmentos mais explorados — já hoje — está posta em causa pela expansão permanente do capital, temos aqui pistas para responder a questões estratégicas. Nas crescentes batalhas pelo planeta — como em tantas outras lutas pela vida, no feminismo, no antirracismo, no movimento LGBT — há debates profundos sobre qual o sujeito social das mudanças revolucionárias de que precisamos.

Num mundo em chamas, em que a reprodução das condições ecológicas para a subsistência da espécie humana — no futuro — e dos seus segmentos mais explorados — já hoje — está posta em causa pela expansão permanente do capital, temos aqui pistas para responder a questões estratégicas

Na tradição socialista, estamos certos de que é a classe trabalhadora quem pode protagonizar essa mudança e não uma soma de grupos oprimidos ou de movimentos em abstrato. Sabemos que é o proletariado que é sociologicamente maioritário e que o seu potencial para se unir e paralisar a produção, cercando a classe dominante, é único. Mas essa certeza estratégica, sem uma dimensão mais ampla do que somos como classe, não poucas vezes ergue muros e alimenta desentendimentos. Uma visão estreita, economicista e sindicalista de quem vive do seu trabalho amputa a luta anticapitalista. Não tem de ser assim.

O fazer-se da classe trabalhadora interseccional já está em curso. É uma marca das grandes lutas populares posteriores à crise capitalista de 2008 — senão de antes. Do Chile a França, da Tunísia aos EUA, da Índia à Venezuela, ergue-se numa longa onda de lutas um novo proletariado tendencialmente «antiliberal, internacionalista, antirracista, obviamente feminista e tendencialmente anticapitalista, em excesso e em tensão com respeito às instituições tradicionais da esquerda e suas práticas.»

A palavra «tendencialmente» é essencial aqui. As crises do neoliberalismo e a forma como curto-circuita as diversas esferas da reprodução da vida, sobretudo da vida de quem trabalha, altamente definidas por género, raça, sexualidade e ecologicamente, explica, em algum grau, esta tendência interseccional das lutas de classes. Elas ecoam automaticamente esses pontos de conflito entre vida e capital. Mas não há que confiar na espontaneidade. A classe dominante não dorme: reprime, desvia, confunde e coopta. Apresenta suas próprias formas de interseccionalidade esvaziadas do conteúdo de classe; anula a potencial convergência e alimenta a fragmentação. Isso não é motivo para deitar fora o bebé junto com a água suja do banho. Mas, sim, para aprofundar uma política intersecional de classe — de esquerda, anticapitalista, em torno de um projeto ecossocialista.

No século xxi «formação do proletariado enquanto classe» tem de passar por aí. Não por uma soma de lutas paralelas, mas pela sua integração num programa de classe, que permita disputar as grandes clivagens políticas do nosso século para saídas socialistas. Todas as clivagens, em todos os terrenos. Não há nenhum em que não possamos vencer.

Talvez seja essa uma outra dimensão do eco que, cada vez mais, devemos agregar ao socialismo. Significando não apenas um socialismo ecológico; não apenas um socialismo que reconhece a emergência de um proletariado ambiental. Mas, sobretudo, expressando um socialismo que vê a luta de classes na sua totalidade, como uma rede de inter-relações várias, em que o eixo do trabalho e da exploração económica se desdobra numa ampla ecologia de dominações — e de lutas emancipatórias que se lhes opõem. Uma ecologia de que emerge um proletariado construído na oposição, múltipla e convergente, às várias formas de dominação capitalista. E é da intersecção dessas lutas que pode então o povo que trabalha reconhecer-se como classe para si. (Re)construir-nos-emos, assim, proletariado, através de uma política de esquerda — interseccional e ecossocialista —, fazendo a luta toda.

Notas:

1 Vale muito a pena ler o artigo completo (por exemplo, aqui: https://esquerdaonline.com.br/2018/12/13/das-greves-das-mulheres-a-um-novo-movimento-de-classe-a-terceira-onda-feminista/), além de outras obras da autora.

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
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