Primeiro-Ministro, CR7 e falta de noção numa piada de Natal

porBruna Oliveira Lemos

30 de dezembro 2025 - 15:35
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Que 2026 nos traga um Primeiro-Ministro que perceba que gostamos de futebol, sim, mas gostamos mais de ter casa, médico, escola e salários que acompanhem o custo de vida. Não o seu salário nem o do CR7. O do português comum.

Caríssimo Primeiro-Ministro,

Começo por agradecer os votos de Feliz Natal. Foram felizes na medida do possível. Estive com a minha família, com as pessoas que mais amo, em casas frias mas com comida suficiente para todos. Nada de extraordinário. Apenas o essencial.

Segundo o Sr. Primeiro-Ministro, devemos lutar mais, persistir mais, não desistir e trabalhar como Cristiano Ronaldo. Todos lhe reconhecemos o esforço, é certo. Mas a sua mensagem de esperança carece de sensibilidade e, acima de tudo, de noção. Não porque o esforço não importe, importa, mas porque a comparação serve sobretudo para nos atirar areia para os olhos. Se não chegamos longe, a culpa é nossa. Falta-nos força. Falta-nos mentalidade e vontade. Mas também nos falta salários e um governo que assuma responsabilidades.

Fiquei na dúvida sobre o que devo mudar para que o próximo Natal seja melhor: a mentalidade, a profissão ou o país.

Comecemos pela mentalidade. Sou professora. Se tentar aplicar à docência portuguesa a mentalidade de um atleta milionário, o que devo fazer exatamente? Trabalhar mais horas? Dormir na escola? Aceitar ainda mais tarefas não pagas? Competir com os meus colegas? Acordo às cinco da manhã, trabalho mais de doze horas por dia, preparo aulas, corrijo trabalhos, acompanho alunos e deixo os meus filhos entregues a um sistema que também vive no limite. Esforço não me falta, nem a mim nem a grande parte dos portugueses que passam uma vida a trabalhar para conseguir o básico.

Mudaria de profissão? Mudaria hoje, sem hesitar, se isso resolvesse algum problema. Até pensaria em ser futebolista, não fosse o facto de a carreira no futebol feminino ser um exemplo claro do contrário da meritocracia tantas vezes invocada: pouco reconhecimento, salários residuais, invisibilidade quase total. Mas esse seria outro texto. E seria irresponsável (da minha parte, claro) abandonar uma profissão já tão fragilizada num país que pouco faz para a proteger.

Resta a hipótese de mudar de país. Já me ocorreu. Ocorreu-me no tempo de Pedro Passos Coelho. Não o fiz porque perdi o meu pai e a minha mãe precisava de mim. Hoje volta-me essa vontade, agora com filhos pequenos que não pediram para nascer num país onde trabalhar muito deixou de ser garantia de viver com dignidade.

Talvez eu esteja a interpretar mal a sua mensagem. Como, aliás, tantos interpretaram mal o Ministro da Educação. Curiosamente, estas más interpretações têm-se repetido com demasiada frequência. Talvez o problema não esteja sempre em quem ouve mal.

Os discursos de força individual e perseverança não batem certo com os números do país real. Dados recentes mostram que cerca de 69% dos jovens portugueses não ganham o suficiente para viver de forma independente. Portugal continua entre os países europeus onde os jovens mais tarde saem de casa dos pais, não por falta de mentalidade de CR7, mas por falta de salários que acompanham os valores absurdos da habitação.

Os jovens tentam sobreviver como podem e um número crescente recorre à inteligência artificial como alternativa de apoio emocional, um substituto improvisado da terapia que o sistema não garante. Entre os homens jovens, a solidão tornou-se estrutural, com estudos internacionais a mostrarem que uma fatia significativa diz não ter amigos próximos. Também aqui não me parece que o problema seja de mentalidade.

O problema não está na preguiça. Está nas condições. Ainda assim, a mensagem passa. Somos pobres porque queremos, porque fazemos greves, porque não trabalhamos o suficiente. Se todos fôssemos como Cristiano Ronaldo, estaríamos melhor. Então não estaríamos? Há apenas um detalhe: mesmo trabalhando mais horas do que devíamos, mesmo sacrificando a vida pessoal, mesmo aceitando salários baixos e toda a precariedade, nunca chegaríamos sequer perto do que Cristiano Ronaldo ganha ao segundo.

Talvez fosse útil ao Sr. Primeiro-Ministro virar o espelho para si próprio e olhar, em silêncio, para a vida concreta da maioria dos portugueses. Não para a vida de quem acumula património, mas para a de quem acumula cansaço.

Em 2025, os imigrantes contribuíram com cerca de 3,1 mil milhões de euros para a Segurança Social, representando mais de 12 % da receita anual. Ainda assim, continuam a ser tratados como problema. No mesmo ano, conflitos armados continuaram a ser uma das principais causas de mortalidade infantil evitável no mundo, com destaque para a situação em Gaza. E só lamento que realidades como estas não entrem nos discursos confortáveis de Natal.

A estratégia de acenar ao eleitorado mais à direita com moralismos simplistas pode parecer-lhe eficaz a curto prazo. A médio prazo, cobra-se-á caro. A si e a todos nós.

Que 2026 nos traga um Primeiro-Ministro que perceba que gostamos de futebol, sim, mas gostamos mais de ter casa, médico, escola e salários que acompanhem o custo de vida. Não o seu salário nem o do CR7. O do português comum.

Os discursos públicos exigem responsabilidade. As piadas fáceis podem ficar para os jantares de negócios.

2026 é já amanhã.

Mas 2025 ficará na memória.

Bruna Oliveira Lemos
Sobre o/a autor(a)

Bruna Oliveira Lemos

Natural de Guimarães. Professora de português.
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