As primeiras palavras

porMiguel Guedes

06 de janeiro 2018 - 15:26
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Mensagens presidenciais à nação são habituais jogos lúdicos com fronteiras e votos magnânimos ao povo, atos de pouca contrição, recados cerrados para balanço.

Os momentos de fronteira ou divisão são autênticas bolas de neve no que diz respeito a decisões. Num curto espaço de tempo, apanhamos a síntese pelos cabelos, arregimentamos traves-mestras e disparamos a rebolar na direção da avalancha. O tempo é imparável, feito de instantes. Num segundo um pulo de ano e poucos são os minutos que temos para desejar tudo o que se quer de bom nas primeiras palavras. As primeiras palavras são chancela, previsivelmente destino. São fogo e, frequentemente, de artifício.

Mensagens presidenciais à nação são habituais jogos lúdicos com fronteiras e votos magnânimos ao povo, atos de pouca contrição, recados cerrados para balanço. Convenientemente embrulhados em paz e amor, fazem as delícias dos captadores de mensagens subliminares, rasgadas que são as vestes. Inédito. A primeira vez de um presidente em direto fez-se na passagem para todas as televisões, ato jubilado que o ex-comentador político não deixaria passar em claro. Um presidente de todos os portugueses faz-se de sinal aberto para o pleno das televisões. Com pouco ou nenhum teleponto, sem rede ou só com a sua global rede de afetos. Nos jogos florais das primeiras palavras, um ideal comum.

A "fraternidade militante" a que Marcelo lançou mãos para traçar o lado bom da exigência humanitária na resposta civil aos incêndios é o contraponto clássico com a incompetência militante do Estado na resposta à catástrofe. Embora saibamos de cor a lenga-lenga do não-podemos-deixar-que-isto-se-repita, mesmo sabendo que a adiada reforma do território florestal é dossier para uma década e meia, a verdade é que entramos no novo ano sem perceber o que foi ou está a ser feito de significativo para evitar que a materialização do Inferno reacenda nos primeiros dias quentes de verão. E isso é criminoso por antecipação.

Outros presidentes falam em tempo diferido sobre incêndios globais. Se a palavra é arma nuclear, não pode ser indiferente a escolha síntese de Kim Jong-un para as primeiras palavras à nação norte-coreana. Enquanto assegurava aos EUA que o botão nuclear "está sempre na sua mesa", manifesta simultaneamente a vontade de permitir a participação do país nos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang (no que é entendido como uma piscadela de olho à vizinha Coreia do Sul no sentido de evitar os exercícios militares comuns programados com os EUA). O regime do ditador coreano utiliza os seus dois únicos atletas qualificados (uma dupla de esquiadores com passaporte olímpico - obtido em Oberstdorf - que compete ao som dos Beatles) para fazer diplomacia olímpica. Nos jogos florais das primeiras palavras, um ideal olímpico. Nas primeiras palavras sem flores, um pouco do nosso deserto urgente.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 3 de janeiro de 2018

Miguel Guedes
Sobre o/a autor(a)

Miguel Guedes

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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