É cedo para fazermos sínteses definitivas sobre a pandemia que estamos a viver. Temos de acompanhar uma pandemia em permanente mudança e alheia aos nossos desejos. Não sabemos como tudo isto vai acabar ou quando. Portanto, humildade nas respostas e muita curiosidade na procura, é o que é preciso. Há dias um médico com quem trabalhei, dizia desconfiar de todos os colegas que tinham sempre muitas certezas. Porque o que ele tinha eram, sobretudo, dúvidas. Ele, O Roberto Roncón, é líder de um dos melhores centros de ECMO (circulação extracorporal) da Europa (sim, fica cá em Portugal). Eu acrescentaria às suas palavras: quem pouco sabe, pouco duvida; quem pouco duvida, pouco procura saber mais. Ainda assim há aprendizagens incontornáveis que se já se manifestam de forma inequívoca e que são úteis para trilharmos caminho:
1. O tempo de reação parece ser fundamental. Quanto mais cedo implementarmos as medidas, menor será o peso da pandemia. Isso permite explicar os “bons números” que temos neste momento em Portugal, por comparação com o resto da Europa: encerramos escolas ao mesmo tempo quando ainda estávamos numa fase muito inicial da disseminação. No entanto, não podemos descurar que diferentes países terão graus de responsabilidade diferentes: Itália, o primeiro país atingido no Ocidente, teve muito pouco tempo e margem de manobra para impedir a catástrofe que se abateu. Já o Reino Unido e os Estados Unidos, atingidos uns valentes dias depois, resistiram a implementar as medidas propostas pelos cientistas: estão hoje a pagar o preço dessa hesitação inicial, com milhares de mortos. Mas se pensarmos a uma escala global, há uma observação que não pode passar despercebida: a China anunciou publicamente a existência de um vírus respiratório, com transmissão entre humanos, a 21 de janeiro! Entretanto passou um mês, fizeram-se muitos jogos de futebol, muitas férias na neve, muitos cruzeiros, criando as condições para uma disseminação em massa. Foi preciso chegar a março para começarmos a reagir. Reagimos todos tarde, demasiado tarde! Todos menos um: a Coreia do Sul. Ainda antes de ter detetado qualquer infetado no seu território, a Coreia começou a produzir testes para o coronavírus em larga escala, o que lhe permitiu testar massivamente a sua população, mal se registaram os primeiros casos. Em 2012 a Coreia do Sul apanhou um susto: o MERS, um outro coronavírus mas com uma letalidade de 35%. Casa roubada, trancas à porta. Parece que para prevenir a morte, primeiro é preciso morrer. Porquê? Talvez os pontos seguintes ajudem a encontrar respostas.
2. O desinvestimento em ciência é a mãe de todos os males pandémicos. Com a pandemia do SARS em 2002 e o MERS em 2012, ambos coronavírus, parece pouco concebível que o mundo tenha sido “apanhado” de surpresa por mais um destes vírus, ainda sem uma vacina. Não é por acaso. Peter Hortez, reitor do Baylor College of Medicine, em Houston, Texas, desenvolveu uma vacina em laboratório que em 2016 estava pronta para ser testada em humanos. Mas ficou arrumada numa estante porque... faltou dinheiro. Como o SARS e o MERS já tinham sido controlados, não houve investidor interessado em comercializar o produto. E essa vacina, provavelmente, era eficaz também nesta pandemia de Covid-19. Enquanto a ciência estiver refém do lucro, estamos bem tramados. Enquanto a ciência continuar a depender de fundos e financiamento de grandes grupos económicos, não há prevenção de doença ou promoção da saúde que nos valha. Teremos aquilo que for viável mas não teremos aquilo que realmente precisamos.
3. Não podemos contar com o setor privado quando está em causa a saúde pública. Nem com os grandes hospitais, nem com as seguradoras (que no caso da Luz Saúde e dos Lusíadas até atuam nas duas áreas). As seguradoras não cobrem epidemias. Nem catástrofes naturais, nem uma série de outras situações que colocam as pessoas em extrema vulnerabilidade. Os hospitais privados, perante a pandemia, ou fecham portas (o caso do SAMS ou o Trofa Saúde), ou correm a exigir que o Estado financie as suas perdas financeiras (como os Lusíadas ou a Luz Saúde). Esta pandemia deixou bem patente que um país, sem um serviço nacional de saúde público, não sobrevive a uma crise desta dimensão.
4. O SNS é o verdadeiro herói no centro desta pandemia. Agastado por anos de desinvestimento, fuga de profissionais para o setor privado ou para fora do país, políticas de transferência de serviços para o setor privado, parcerias público-privadas, mostrou, num momento de aflição ímpar, uma resiliência extraordinária. Reorganizando serviços, mobilizando recursos, os profissionais do SNS mostraram que, apesar de todas as dificuldades, estão mais do que à altura para responder com dedicação, profissionalismo e um espírito de abnegação inesperado. Ficou claro que, mais do que o dinheiro que o financia (ou a falta dele), é a sua “natureza” de serviço público que fez com que o SNS se mostrasse a pedra basilar na resposta à pandemia.
5. Os lares de idosos não protegem os idosos. Há imensas razões para a explosão do vírus que verificamos nos nossos lares. Mas há uma que não podemos descurar: o pluriemprego de quem lá trabalha. Enfermeiros, auxiliares, técnicos, estão frequentemente entre o lar e o hospital ou outra instituição de saúde, forçados ao pluriemprego pelos baixos salários. E nesse circuito, a probabilidade de transportar agentes patogénicos para o lar, e não apenas este vírus, é enorme. Esta é uma de entre outras boas razões, pela qual temos que apostar na exclusividade dos profissionais de saúde, remunerando-os de forma justa pelo trabalho que desempenham e que agora todos aplaudem.