As tempestades emocionais, mais ainda se apimentadas pelas redes sociais, são assim mesmo, juntam os mais improváveis parceiros de cama, como lembra Shakespeare na “Tempestade”. No caso das vacinas, tocaram a rebate comentadores seduzidos pelo populismo e técnicos ofendidos, e ouvimos as primeiras salvas da campanha eleitoral do PS.
O populismo sabe tão bem
O Parlamento “falhou estrondosamente”, fez “asneira grossa”, “atropelou os bons procedimentos”, é a versão mais delicada, no “Público”. Aqui, no Expresso, foi Bernardo Ferrão quem chegou mais longe: “Os últimos dias foram de vergonha no Parlamento, com os deputados a aprovarem tudo e o seu contrário, numa verdadeira coligação negativa contra si próprios. Dizem-me que é a política! Triste política.” Aprovaram “tudo e o seu contrário”? Importa-se de explicar? As frases disparam populismo puro. Populismo na generalização e simplificação, populismo na acusação.
Pois escreve Ferrão: “O que aqui ponho em causa não são as vacinas propriamente ditas — que mais tarde ou mais cedo vão entrar no PNV, deitando por terra o argumento de que a DGS e o Governo só estão apostados na poupança — nem a sua importância para a população, sobretudo a mais carenciada. O meu ponto prende-se sobretudo com o processo decisório. Os partidos que propuseram e aprovaram esta medida meteram-se, por mero jogo político, onde não são chamados.” Ou seja, o comentador sabe que as vacinas são necessárias, que “mais tarde ou mais cedo” serão incluídas, mas acha que só podem ser aprovadas por quem se tem recusado até agora a aprová-las, apesar “da sua importância para a população, sobretudo a mais carenciada”. “Vergonha”, não foi o que disse?
A razão técnica
A empolada defesa do poder técnico teve duas entoações, ambas estranhas: que a aprovação destas vacinas favorece a campanha antivacinas e que é um favor à indústria farmacêutica. Custa ver pessoas inteligentes a repetirem tais frases. A primeira é absurda e a segunda falsa, pois se for o Estado a negociar as vacinas com a indústria o preço ficará muito mais barato do que custa agora às famílias (sim, muitas crianças já são vacinadas, quando as famílias pagam). Resta portanto o exercício do poder técnico, mesmo que haja vários candidatos, como o bastonário da Ordem dos Médicos, a reclamar a palavra final.
Acontece que, em outubro, a diretora-geral Graça Freitas dava por certo que a vacina para a meningite B devia ser aprovada. Seguia a recomendação da Sociedade Portuguesa de Pediatria: “A Comissão de Vacinas recomenda (para a meningite B): vacinação de crianças dos 2 meses aos 2 anos.” A mesma Sociedade, no caso da vacina contra o rotavírus, “mantém a recomendação de vacinação de todas as crianças saudáveis”. E, em relação ao HPV, “a Comissão de Vacinas recomenda a administração da vacina, a título individual, aos adolescentes do género masculino como forma de prevenir as lesões associadas ao HPV”. Outros técnicos têm opinião diferente e recomendam a inclusão de uma mas não das três vacinas no plano nacional. Há países com características epidemiológicas próximas das nossas com decisões diferentes. Por isso mesmo, a presunção de que existe um parecer técnico inquestionável e unânime é fantasiosa.
Talvez quem lê estas linhas se lembre do que aconteceu com a hepatite C. O protesto de um doente no Parlamento venceu a oposição da comissão técnica e o tratamento passou a ser comparticipado. Há dias em que o respeito pelos doentes vale mais do que o parecer do Ministério das Finanças, a única razão técnica que manda em Portugal.
Finalmente, as vacinas inauguraram a campanha eleitoral que, para o partido do Governo, se declina num refrão: as alternativas são de gente impreparada, o que é enunciado em vários formatos, desde a incompetência à leviandade, desde a sugestão de corrupção até à acusação de facilitismo. A ajuda dos técnicos omnipotentes e dos comentadores indignados soube bem a esta estratégia. Mas as crianças continuam a merecer a melhor proteção na saúde, mau grado estas vozes zangadas.
Artigo publicado no jornal Expresso a 8 de dezembro de 2018