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Preconceitos ideológicos

Quando faltam os argumentos, desqualifica-se o oponente. Sempre foi assim e as redes sociais, com a sua fervura epidérmica, vieram potenciar este vício revelador de fraqueza.

Há estratégias de desqualificação padronizadas e algumas que vão caindo em desuso. Por exemplo, já teve melhores dias o emprego da palavra “fundamentalista” para condenar à marginalidade as opiniões de alguém. Ao militante ambientalista ou à defensora dos direitos humanos chamava-se fundamentalista e o efeito mágico era ter as suas posições como insensatas, logo inaceitáveis. Agora chama-se “populista” sem critério e o efeito pretendido é o mesmo. Populista é o que não se revê nas virtudes do centro e na placidez da moderação. Vai daí, opiniões que se afastem desses posicionamentos só podem vir de gente populista e estão, por isso, condenadas a ser repudiadas liminarmente.

A outra estratégia de desqualificação em voga é a de acusar o adversário de ter preconceitos ideológicos. Como se quem acusa fosse neutro. Como se de um lado estivesse o viés ideológico e do outro lado a pureza imaculada. Vamos a exemplos.

O Bloco de Esquerda propôs que novos pagamentos ao Novo Banco – seja por injeção direta de verbas do orçamento seja por via de empréstimos bancários ao fundo de resolução – fossem suspensos até à realização de uma auditoria independente. E logo vieram os comentadores encartados do costume clamar que nem pensar, que um contrato é um contrato e que só mesmo os preconceitos ideológicos do Bloco podiam explicar esta exigência. E a pergunta é: defender a estabilidade do contrato com a Lone Star quando há indícios mais que fortes de que a sua gestão do banco é ruinosa e delapida quer o erário público quer o próprio Novo Banco é o quê senão a expressão de um enorme preconceito ideológico?

Segundo exemplo. O Bloco de Esquerda propôs que se repusessem as compensações por despedimento anteriores às reduções impostas pela Troika e que o período experimental nas relações de trabalho regressasse ao que era antes da duplicação decidida pelo Governo em 2019. E logo vieram os comentadores encartados do costume clamar que só os preconceitos ideológicos do Bloco justificam estas propostas porque elas só fariam rebentar uma guerra com a Comissão Europeia. E a pergunta é: defender a supremacia de Bruxelas para justificar a retração de direitos imposta pela Troika e o uso do período experimental como estratagema para a prática do trabalho sem direitos é o quê senão a expressão de um enorme preconceito ideológico?

Os vozeadores dos preconceitos ideológicos dos outros têm grandes preconceitos ideológicos eles próprios. Tão grandes que sentem necessidade de os disfarçar, embrulhando-os na linguagem do “pragmatismo”, da “eficiência” ou da “sustentabilidade financeira”. Mas é um disfarce. Porque, como é óbvio, o enfrentamento não é entre quem tem ideologia e quem não a tem – isso não existe – mas sim entre posições contrastantes, ideologicamente fundamentadas. São escolhas, portanto, nem mais nem menos que escolhas. Desqualificar o adversário sobreideologizando-o é uma simples estratégia de disputa de poder a favor de uma posição – e da ideologia que a sustenta - contra outra.

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Prestação de contas da minha atividade como deputado na semana passada:

- pergunta ao Governo sobre as condições de visita de crianças aos seus familiares presos;

- preparação de iniciativas legislativas sobre direitos de pessoas com deficiência

- presidência dos trabalhos das sessões plenárias em substituição do Presidente da Assembleia da República

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 13 de outubro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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