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Precariedade e bom censo

O censo à nossa medida é a operação precária que esconde a precariedade que não cabe no bom senso.

Até que nós escrevemos por vias burocráticas em linhas travessas. E se a existência precária individual se escreve fugidia na forma de um currículo, a existência precária colectiva escreve-se perene na forma de um censo. Nele se pode ler o que se acha estatisticamente legível de um país, o modo como é feito, o que é dito e o que fica por dizer, as tensões, os protestos e os incómodos que cria.

Harmonia recenseadora e para lá dela

Há bem pouco tempo, por exemplo, poderíamos ler algo da China na sua gigantesca operação de recenseamento guiada pelo lema neo-confucionista da harmonia. Para lá do bom censo da harmonia, estavam as tensões da política (não muito rígida diga-se) do filho único e das migrações internas (ilegais mas consentidas) para as cidades.

Por cá, o censo à nossa medida é a operação precária que esconde a precariedade que não cabe no bom senso. E o censos 2011 não deixa de ser uma operação de harmonia social. Se o quadro harmonioso da razão estatística é deturpado pelo que existe, retoque-se o que existe: se trabalhaste meia hora alguma vez na vida então és trabalhador/a toda a vida, se estás a falso recibo verde é favor aldrabar para te encaixar nos trabalhadores por conta de outrem, se és estagiário/a ou bolseiro/a não existes mas não faz mal inventa-te algures por lá na mesma, se não tens abrigo mas estás agora num prédio abandonado ou no vão da escada de um apartamento então moras lá só que não sabes, se és deficiente apareces diluído num mar de outras situações.

O senso normalizador do censo implicará, e ainda não preenchi o censos 2011 por isso não falo por experiência feita, uma operação de sentido crítico para perceber o que escapa ao bom senso estatisticamente relevante e quem fica de fora.

O senso 32/21

É por ser estatisticamente irrelevante, dizem-nos por exemplo, que os falsos recibos verdes não cabem nos censos 2011. Alegam que “nunca será possível recolher informações sobre todas as questões de interesse para a sociedade”, mas isso só mede o desinteresse de quem formulou assim o apelo à mentira na célebre pergunta 32 conhecendo muito bem esta situação. Justificam com “categorias usuais”, apesar do falso recibo verde ser hoje uma das categorias mais usuais que conhecemos, e apresentam, por fim o argumento de que se trata de algo “de direito e não de facto”. Mas, estranha e selectiva razão estatística, noutras situações já não se trata do “direito” uma vez que não se compreende o que o “direito” terá a ver com por quem passou cá por casa no dia 21 entre a meia noite e o meio dia, nem que relevância estatística tal informação tenha.

Ainda bem que as queixas apresentadas à Provedoria de Justiça e os protestos existentes mostram que já não é possível branquear mais o que é falso verde. É tempo de afirmar que os falsos recibos verdes cabem no bom senso como couberam bom censo. O problema é que, apesar de todos os c(s)ensos, eles existem porque é a razão dos patrões pouco escrupulosos quem dita as regras. E até para pagar a crise harmonia nacional tem dois pesos e duas medidas.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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