Está aqui

A precariedade como regra

Um país que quer legislar para ser mais fácil despedir e força a emigração não é o país onde o povo quer viver.

Para a maioria dos portugueses e portuguesas as eleições parecem ainda muito distantes. Mas não para o governo, mais concretamente para Paulo Portas. Tudo corre bem na ótica do governo: as exportações parece que crescem; afinal já se poderá, eventualmente, num futuro hipotético, baixar impostos; o desemprego, por um toque de mágica muito obscuro, vai desaparecendo.

Não é essa a perspetiva da larga maioria das pessoas deste país: os estudantes cada vez têm mais dificuldade em estudar (porque têm que pagar), conseguir um trabalho digno é uma miragem, estar doente começa a ser uma espécie de luxo, conseguir sobreviver com uma pensão já praticamente é uma inexistência.

Duas visões diferentes, uma mesma realidade. Só que o governo escolhe não a ver, não a admitir, embelezá-la; o povo vive-a, todos os dias. Falando da realidade da falta de trabalho digno, com contrato e direitos, olhemos para a ideia que nos tentam vender sobre a ilusória descida do desemprego.

A ideia de que criando trabalhos ainda mais precários e em part-time se diminuem taxas de desemprego tem que ser desconstruída. Não se consegue aceitar que um governo utilize como argumento o aumento de contratos a prazo e part-times para se vangloriar de melhoria das condições no país. Não se consegue porque é uma mentira pura e simples, na medida em que não se melhoram condições económicas e sociais de um país aumenta o trabalho temporário, onde escasseiam os direitos mas estão em demasia as exigências por parte da entidade patronal.

Não há melhoria económica quando o salário, em média, destes empregos criados é, muitas vezes, inferior ao salário mínimo; nem quando a contratação com direito a integração na empresa é substituída por contratos sucessivos com empresas de trabalho temporário, intermediário que fica com parte do salário do trabalhador ou trabalhadora.

Em suma “A ascensão de um país onde a precariedade é a única regra vai-se consolidando com cada nova divulgação de dados de emprego. Uma das características desta precarização é a volatilidade e as súbitas subidas e descidas acentuadas de emprego em determinadas circunstâncias: a montanha russa da precariedade vive da sazonalidade, da inconstância e das veleidades patronais e de governos deste tipo – da rápida contratação a prazo para anúncio público, do despedimento em massa para garantir mais lucros em determinada altura, de ser posto em “stand-by” à espera do próximo recibo verde.”1

Um país precário não é um país em retoma económica; onde reina o austeritarismo e o conservadorismo não pode reinar a ideia de uma economia mais próspera e justa. Um país que quer legislar para ser mais fácil despedir e força a emigração não é o país onde o povo quer viver. Porque truques de ilusionismo não duram muito tempo, o discurso deste governo cai, aos poucos, por terra, todos os dias; e disso o faremos lembrar.


Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
(...)