A praxe é como os offshores

porFrancisco Louçã

09 de março 2017 - 22:20
PARTILHAR

Como foi que a praxe se tornou o principal fator na destruição de um movimento estudantil reivindicativo e um tão impressionante sucesso na criação de conformismo e da cultura da direita?

A publicação do estudo de duas universidades sobre “A Praxe como Fenómeno Social”, dirigido por João Teixeira Lopes e João Sebastião, como há pouco o de “Praxe e Tradições Académicas”, de Elísio Estanque, desencadeou reacções interessantes: enquanto o ministro prometia condenar os abusos, o presidente da Federação Académica de Lisboa veio explicar “que a praxe, como prática entre estudantes, não poderá nem ser legislada nem abusiva”, ao que o de Coimbra acrescentou seraficamente que “não vê com bons olhos” um “policiamento” das ações praxistas.

Os organizadores dos rituais praxistas reagem como os financeiros dos offshores: ficam à espera que a tempestade passe. Percebe-se porquê, o seu poder depende da praxe, que é o factor decisivo na legitimação e eleição de muitos dos dirigentes associativos. E já sabem que a tempestade pode passar, apesar de, desde o crime do Meco, crescer a contestação incómoda e ser notória a imagem do ritual.

A pergunta será então: como foi que a praxe se tornou o principal fator na destruição de um movimento estudantil reivindicativo e um tão impressionante sucesso na criação de conformismo e da cultura da direita? A resposta talvez seja que a praxe organiza uma forma de poder no sentido mais químico do termo: reproduz-se sem necessitar de um estado-maior, automatiza-se sem precisar de um partido e, assim, assegurou a transfiguração da juventude estudantil. A praxe é um corpo.

O estudo e o livro desvendam muitas pistas para compreender este poder corporal: a imagem de boémia constitui um dos rituais de passagem em que jovens encontram um reconhecimento pela autoridade delegada dos seus pares e, pela primeira vez nas suas vidas, a sua identidade social afirma-se separada da família. Ao contrário do ensino secundário, em que são “alunos”, agora são “estudantes”. Isso também explica a desconexão que faz da praxe um campo excecional para a cultura da submissão: a praxe mobiliza um ritualismo machista mesmo em universidades cada vez mais femininas e, de facto, é mais sexista do que a sociedade em que se exibe. A identidade, incluindo esta particularidade machista, é exposta com um orgulho de pertença que é reforçado pelo envolvimento das próprias instituições, que veem estas demonstrações como parte da concorrência entre universidades e mesmo entre faculdades, e das marcas de produtos alcoólicos, que procuram uma fidelização intensa patrocinando bebedeiras monumentais como afirmação dessa pertença coletiva.

O resultado, hierarquia e conformismo, é um manifesto da forma de viver da direita, e a esquerda nem percebeu o comboio que estava a chegar. Desvalorizou as tunas, meninos e meninas aos saltos com pandeiretas e cançonetas desafinadas, e ignorou, se é que em alguns casos não participou também, no transcrescimento desta cultura banalizadora de toda a transgressão contra a autonomia e respeito pelos jovens caloiros.

Conta-nos uma reportagem recente sobre uma praxe na Covilhã: “os caloiros são deitados no chão e os veteranos despejam-lhes em cima garrafões cujo conteúdo é preparado durante todo o ano: uma mistura de leite estragado, ovos podres, óleo, farinha, leite de coco, vinagre, azeite, vinho, mostarda e ketchup estragados, pasta de dentes, enfim, tudo o que vier à cabeça do ‘veterano’”. Vai uma diferença daqui aos crimes do Meco? Vai, mas pode não ser tão grande nesta realidade que se tornou o vídeo-jogo de uma caçada.

Ora, quem é caçado vai ser caçador e o sistema reproduz-se em espiral, auto-alimentando-se infinitamente. Por isso, a praxe é uma política, como forma de associativismo e de início de carreira, com a criação de afinidades e a legitimação de modos de comportamento – os praxistas e praxados reconhecem-se, tornam-se iguais na humilhação. O poder da humilhação é a maior lição do poder efetivo.

O estudo que estou a citar sublinha ainda outros elementos da praxe: a folclorização no espaço público, a sua plasticidade e adaptabilidade, a dramatização de papéis sociais encenados, ou seja, mais uma vez, a construção de uma identidade marcante e definidora. O estudante passa a ser a sua própria praxe, que define o seu futuro: “Finalmente, a praxe é uma dramatização dos futuros prováveis, atuando como socialização antecipatória. Em tempos de intensa desvalorização relativa do valor dos diplomas, em que se fala já da categoria emergente de ‘excluídos com longa carreira escolar’; em que se difunde a inevitabilidade do fim do trabalho estável e socialmente protegido; em que se profecia a generalização da intermitência e da oscilação entre emprego-subemprego-desemprego-formação; em que se assiste à fragmentação do mercado de trabalho e à individualização da relação social, a praxe surge como ritual de suspensão, espaço-tempo para reforçar competências que supostamente são procuradas (obediência, esforço, sacrifício, disciplina), obliterando a ideia de futuro, habitando a precariedade imaginada na exacerbação da passagem que é o ensino superior, revelando, então, que estes jovens estão prisioneiros dessa travessia, bloqueados nas transições (para a vida adulta, o trabalho, uma família de destino) e por isso destinados a vivê-las através de um ritual que exalta o momento, transforma o sacrifício em festa e o anonimato em reconhecimento.”

O derradeiro argumento para esta identidade é a reivindicação da praxe como “tradição” e é uma efabulação. É possível que D Dinis tenha determinado em 1308 o recolher obrigatório para os estudantes, vigiado pelos mais velhos, mas, com todas as interrupções e vicissitudes, em 1727 D. João V determinaria o fim do vexame: “Mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos” – e estavam a tratar de quê, dezenas de estudantes numa academia?

A praxe, comparável com a que conhecemos agora, a dos jovens de penico na cabeça e cara pintada, foi interrompida pela instauração da República em 1910 e depois reinventada em 1919, para depois ser de novo exterminada pelo movimento estudantil em 1969 e reinstaurada como sabemos no nosso tempo. Talvez então a praxe seja mesmo como os offshores, nunca acaba porque o seu poder se considera infinito.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 7 de março de 2017

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
Termos relacionados: