Rui Moreira parecia ter tudo para fazer destas eleições um passeio. No seu mandato, neutralizou o PSD (dois dos três vereadores laranjas passaram para a equipa de Moreira) e meteu o PS no bolso (com Pizarro totalmente apagado nos últimos anos, subalterno numa coligação com o atual presidente). Além disso, a efervescência cultural, o boom turístico e a distensão da relação com a vida social na cidade marcaram uma diferença com o passado recente. Mas a campanha pôs a nu as suas fragilidades. Moreira tem muito pouco para apresentar em questões essenciais: projetos simbólicos como o Bolhão só serão concretizados no futuro, o problema da habitação e da especulação imobiliária agravou-se muito, o investimento social da autarquia é do domínio do ridículo, a concessão a privados de serviços municipais como a recolha do lixo têm degradado a olhos vistos a qualidade com que eram prestados. Mas além do mais, Moreira cometeu o enorme pecado da arrogância. Faltou a debates (coisa que criticara violentamente em Menezes há quatro anos), teve gestos disparatados de autoritarismo (como quando processou artistas da cidade por fazerem uma paródia ao logótipo da Câmara), mostrou-se parecido com Rui Rio na relação com os jornalistas (primeiro, os ataques ao JN, depois a jornalistas do Público) e preferiu salvar os interesses da sua família do que salvar a sua honra e defender os interesses da Câmara no caso Selminho. O resultado está à vista: mesmo que ganhe a Câmara, para Moreira esta campanha foi sempre a perder.
Pizarro, pelo contrário, tinha tudo para que a campanha lhe corresse mal. Na Câmara, não tem nada para apresentar: é justamente na área da habitação e na área social, as duas que estiveram sob sua responsabilidade, que a cidade está pior e que estes quatro anos foram anos perdidos. O facto de vir agora propor-se fazer o que não fez e de se apresentar como o oposto do que foi retira-lhe, evidentemente, credibilidade. Mas Pizarro, que tinha o problema político de, poucos meses antes das eleições, defender que Moreira era o presidente da Câmara ideal e que o PS o devia apoiar, apostou numa estratégia de vitimização face a Moreira e num discurso da quadratura do círculo que, aparentemente, permitiram consolidar o seu espaço. Mas serve de pouco: afinal de contas, insistindo que lhe é indiferente aliar-se à Direita ou à Esquerda, Pizarro acaba por não dar garantias. Nem de ser uma oposição consistente, nem de que vai conseguir determinar soluções políticas que não sejam de continuismo com Moreira.
O PCP, que tem um vereador e raízes fundas no tecido da cidade, apresentou uma candidatura com duas figuras de peso. Rui Sá tem um grande prestígio no Porto e Ilda Figueiredo é uma das dirigentes no ativo mais antigas do partido. Mas Ilda, de todos os candidatos aquela com mais experiência autárquica (é autarca desde 1983, em Gaia, depois no Porto, e neste últimos anos em Viana do Castelo) não se apresentou com a energia de outras disputas. Numa campanha muito centrada em alianças passadas e futuras, a CDU enredou-se em formulações que, de tão confusas, não impediram que alguns evocassem o seu papel no primeiro mandato de Rui Rio. Além disso, o partido não aproveitou nem trouxe para as listas do Porto aquela que é, provavelmente, a sua figura mais conhecida e querida na cidade: José António Pinto (o “Chalana”), o assistente social de Campanhã que é um dos símbolos maiores do Porto insubmisso e solidário, justamente nas duas áreas que são os problemas principais com que a cidade se confronta: a habitação e a pobreza.
Finalmente, o Bloco de Esquerda. Não falo de fora nem tenho a objetividade do distanciamento: é evidentemente a candidatura que apoio. Decerto não terá sido perfeita em tudo. Teve aliás de enfrentar o imprevisto que resultou da reconfiguração das candidaturas à esquerda e a necessidade súbita (por motivos que se conhecem e que não são políticos) de reconfigurar a sua própria candidatura. João Teixeira Lopes fez, nesse contexto, uma campanha cristalina como nunca, definindo as suas prioridades (habitação, transportes, apoio social nomeadamente aos idosos, transparência) e apontando o dedo à arrogância de Moreira. Não por acaso, com Teixeira Lopes o Bloco cresceu, com as sondagens a apontar para a duplicação do seu resultado e para a possibilidade real de ter, pela primeira vez, um vereador. Como tem dito o João, esse vereador será uma dupla garantia: a de que haverá finalmente no Executivo uma voz socialista combativa para fiscalizar o poder; e a de que haverá um vereador capaz de contribuir com soluções para os principais problemas da cidade, tal como o Bloco tem feito no país. De facto, o Porto nunca teve o Bloco representado na Câmara. E na Assembleia, ter o João Semedo é um privilégio para a cidade. Olhando para o que foram estes anos e pensando no futuro, faz falta. Mesmo. E domingo podemos resolver isso.
Artigo publicado em expresso.sapo.pt a 29 de setembro de 2017