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Porque é que os especuladores prejudicam os Estados

A famosa crise do subprime explodiu porque estas não souberam ser isentas na análise e atribuíram a nota máxima a produtos financeiros onde estavam incluídos títulos hipotecários de alto risco, que, por isso, puderam ser vendidos no mercado a um bom preço, passando de carteira em carteira até os mercados se aperceberem que, por detrás daqueles enormes lucros especulativos, estavam famílias americanas incapazes de pagar as hipotecas das suas casas. E foi assim que tudo começou.

São também as mesmas agências que estão agora a avaliar de forma negativa o risco de incumprimento da Grécia e de Portugal, e que servem de álibi ara a imposição de enormes pressões para que alteremos as nossas politicas económicas.

É com base na nota atribuída que os investidores internacionais exigem um determinado retorno em troca da compra de títulos de divida pública, ou seja, uma taxa de juro, que será tanto mais alta quanto pior a avaliação.

Simultaneamente, à medida que compram títulos de dívida pública, os investidores negoceiam também um outro produto financeiro, os credit default swap (CDS), que funcionam como um seguro sobre a divida, que valoriza à medida que a percepção da possibilidade de incumprimento por parte dos Estados aumenta. Desta forma, o preço dos CDS é também utilizado como um medidor do risco de um país.

Quando as agências de notação financeira anunciam que estão a ponderar rever negativamente o rating de um país, a previsão do aumento do risco de incumprimento leva a uma valorização dos CDS, garantindo lucros elevados a quem especula através destes produtos.

Adicionalmente, os investidores estrangeiros vão exigir taxas de juro mais elevadas para comprar dívida publica, aumentando o seu peso (medido em percentagem do PIB) na economia do emissor, tornando mais difícil o seu pagamento, o que leva a um novo aumento do risco, no preço dos CDS, e assim sucessivamente.

Este ciclo desastroso tem pesadas consequências para a economia real. Para conseguir fazer face aos seus compromissos e acalmar os mercados, deverão ser feitos sacrifícios, na Grécia e em Portugal: privatização de serviços públicos, diminuição de salários, de prestações sociais e de tudo mais que consideram "gastos excessivos" do Estado. Mas, a julgar pelas últimas noticias divulgadas, tudo isto parece não ser suficiente para a Comissão Europeia, que irá exigir "esforços adicionais" - menos despesa pública e mais crescimento económico - como se estes fossem objectivos compatíveis.

Os especuladores prejudicam os Estados porque lucram sempre, quer as economias cresçam, quer entrem em crise, indiferentes ao desemprego, à pobreza ou a qualquer outro factor que afecte a economia real e as populações. São tanto mais prejudiciais porque exigem dele garantias, créditos e injecções directas de liquidez quando estão em crise, e cobram depois elevados juros e spreads quando encontram uma oportunidade para lucrar com a crise do Estado.

Este PEC não serve porque reflecte a incapacidade, ou falta de vontade, do Governo Português e da Comissão Europeia para quebrar a lógica de subordinação relativamente aos mercados financeiros mundiais.

É preciso travar este esquema, criar agências de rating públicas, fora dos interesses cegos do mercado, banir a especulação financeira predadora e criar mecanismos justos de financiamento das economias em dificuldade. Simultaneamente, não aproveitar o momento para discutir as políticas económicas e monetárias europeias, é aceitar a inevitabilidade do discurso praticado.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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