Pornografia juvenil

porMiguel Guedes

02 de março 2018 - 9:08
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A forma como Donald Trump foi apanhado a salvar a própria pele, na conversa que manteve com sobreviventes do tiroteio na escola da Florida, é uma montra grotesca de pornografia juvenil.

A nossa inscrição pessoal na vida cria muitos atilhos com a forma como lidamos com a infância. A relação das crianças com o poder nunca é um dado adquirido. Sempre ambivalente, elas são poder. Exercem-no com regras próprias, nada amestradas mas antecipáveis, em tudo livres mas dentro dos seus limites de entendimento. O problema de alguns adultos passa então pelo momento em que abdicam do seu poder para vestirem a pele de oposição, contrapoder. Vivem-se tempos embaraçosos onde o uso quase ilimitado de aparelhos tecnológicos é responsável por crianças chegarem à escola com dificuldades em pegar em lápis. A entrada na idade adulta precipita um conhecimento mais profundo da infância, talvez por esta ter sido vivida e mastigada há tempo suficiente para que, após o abandono da adolescência, lhe pudéssemos dedicar todos os anos de serviço. Há quem só repare nas crianças quando já tem idade para isso.

Olhar para o que se passa na Síria é um exercício militar de contenção em raiva, onde centenas de crianças fogem da morte para morrer. Tudo o que está mal se sintetiza ali, naqueles instantes que são só a milésima parte de uma vida diária dentro das portas do Inferno. As imagens não abandonam, estão em todo o lado e não devemos fugir a essa aflição. A nossa responsabilidade mínima é a de fazer perguntas.

Do grotesco. A forma como Donald Trump foi apanhado a salvar a própria pele na conversa que manteve com sobreviventes do tiroteio na escola da Florida, ostentando uma cábula de respostas pacificadoras entre as mãos, é uma montra grotesca de pornografia juvenil. Dias depois do massacre, Trump lida com as crianças e adolescentes como o perfeito imbecil que nunca desiste de ser, centrado em si e na sua agenda, sem desfazer um milímetro o novelo das políticas de armamento civil no país. Qualquer pessoa que, em conversa com miúdos em pleno momento traumático, necessite de uma cábula para não se esquecer de dizer "estou a ouvir" ou de perguntar "o que podemos fazer para te ajudar a sentir seguro?" é a personificação da anormalidade. Alguém que sugere armar professores como boa resposta a futuras agressões é um consumidor de gasolina.

No intrincado mapa histórico que herda e projecta, a Turquia continua a mostrar ao Mundo como uma espécie de democracia pode combinar tão bem com tormento. Amine Tires é o nome da menina que Erdogan escolheu para mostrar o orgulho nacional em palco de comício. Numa altura em que, no interior do país, está no auge a ofensiva militar contra os combatentes curdos sírios aliados dos rebeldes curdos, o presidente turco beija a criança que chorava, aterrorizada, dizendo que "ela tem a bandeira turca no bolso. Se vier a ser um mártir, se Deus quiser, esta bandeira será colocada sobre ela". Na relação de poder entre adultos e crianças, começa a ser perturbador pensar que o Mundo deles venha a ser destes.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 28 de fevereiro de 2018

Miguel Guedes
Sobre o/a autor(a)

Miguel Guedes

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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