O discurso de ódio, tão caro à extrema-direita, limita-se a copiar o que de pior se verifica noutros países, por exemplo nos EUA, sem esquecer a Europa, procura dividir o povo, lançando uns contra os outros a mando do capitalismo neoliberal, a nova versão do “dividir para reinar”.
Não nos deixemos arrastar nesse ruido estúpido, pelo egoísmo racista, xenófobo e criminoso.
A situação em que vivemos neste velho mundo não é de modo a deixar-nos confortáveis no nosso canto, alheios ao que se passa em redor. A solidariedade internacionalista é uma formulação antiga, mas actual, que nos deve confrontar permanentemente, sob pena de negarmos a nossa própria qualidade de seres humanos. Não é possível a qualquer ser humano, comunidade ou país viver sem interagir com os outros. O homem é um ser social e ao interagir com os outros conseguiu o conhecimento e a sobrevivência.
É a partir deste pressuposto que defendo o respeito e a solidariedade activa com todos os povos independentemente das respectivas etnias, ideologias, religiões ou outras especificidades.
Todos os povos têm direito à sua autodeterminação e a viver de acordo com a sua vontade soberana, no respeito pelos direitos dos outros.
Assim, se denuncio e repudio a invasão do território da Ucrânia pela Federação Russa, atitude que já antes tinha manifestado relativamente ao Iraque, à Líbia, à Síria e ao Afeganistão, países que sofreram a cobiça criminosa de potências estrangeiras, também repudio a invasão do Hamas e o rapto de reféns israelitas em 7 de Outubro de 2023, facto que suscita dúvidas. Do mesmo modo denuncio e repúdio a invasão da faixa de Gaza e da Cisjordânia pelo governo sionista de Israel e pelos seus colonos. E, por maioria de razão, a feroz, desproporcionada e cruel resposta sistemática contra os habitantes de Gaza, muitos deles crianças, mulheres e velhos, mas também profissionais de saúde, jornalistas e até representantes da ONU, de forma vil e indiscriminada, que considero ser um genocídio.
A incompreensível insensibilidade demonstrada pelos diferentes países da Europa perante este crime inenarrável, não tem qualquer justificação aos olhos, quer do direito internacional, quer dos direitos humanos. A Europa mostrou à saciedade que tem dois pesos e duas medidas diferenciadas para situações análogas.
O povo judaico pode a si próprio considerar-se “povo eleito” ou “povo de deus”, mas essas desculpas bíblicas não podem isentá-lo de atender e respeitar as regras que, melhor ou pior, regem as relações entre estados.
Os crimes cometidos contra os judeus vêm de tempos muito antigos, passando pela Idade Média, pelas perseguições e expulsões da Inquisição da Igreja Católica, os “pogroms” por toda a Europa, e mais recentemente pelo horror do Holocausto levado a cabo pelos nazis, aquando da II Guerra Mundial, merecem, por parte dos outros povos reconhecimento, empatia e pedidos de desculpa. Porém, Israel, tem utilizado de forma inusitada assassinatos, a captura de prisioneiros sem julgamento, por longos períodos, muitos dos quais de crianças e jovens e tal situação não é compaginável com um Estado de direito e que se reclama de única democracia do Médio Oriente.
Foi a campanha de um jornalista austro-húngaro, Theodor Herzl, que em 1897, perante o crescimento do antissemitismo na Europa, criou o movimento sionista visando a instalação de um estado para os judeus, a quem chamou de terra prometida.
Depois de uma longa discussão sobre os locais possíveis para a instalação desse Estado, acabou por ser implantado na Palestina, em território sob “ protecção” inglesa desde o final da 1ª Grande Guerra mas onde habitavam os povos semitas que de lá nunca tinham saído, os palestinianos.
Entretanto, os judeus sempre contaram com o poderoso apoio financeiro da riquíssima comunidade judaica americana, desde os primeiros anos do século passado, para a compra de terrenos para expandir os Kibutz e posteriormente para a aquisição de armamento.
Mas, o tardio reconhecimento do Estado da Palestina por países da Europa e não só, incluindo Portugal, é, em grande parte, resultado das gigantescas manifestações de rua em todo o mundo e, creio não ser estultícia, afirmar que a acção da corajosa flotilha internacional que se propôs quebrar o cerco de Israel à Faixa de Gaza e levar mantimentos e medicamentos aos Palestinianos, contribuiu para chamar a atenção para a situação.
Nos nossos dias o reconhecimento do Estado Palestiniano foi um primeiro passo importante mas simbólico, para obrigar Israel a cumprir as determinações internacionais. Será necessário mexer onde mais lhes dói, isto é, boicotar os produtos oriundos de Israel ou de empresas israelitas e apoiar os boicotes a iniciativas culturais, desportivas ou outras, a exemplo do que tem sido feito a países que incumprem com os direitos humanos.
Para resolver estes e outros problemas do mundo não pode ser escolhida a via do odio e do extremo conflito, mas a negociação e o entendimento. Essa deve ser a proposta de quem defende a paz. “Si vis pacem, para bellum” (se queres a paz prepara a guerra), não passa de uma falácia armamentista, só interessa a quem vive das armas.