Por um Abril de “todos, todos, todos”

porMiguel Martins

15 de maio 2025 - 16:11
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Atrevo-me a perguntar: quereria o Papa Francisco que não celebrássemos o 25 de Abril? Duvido muito.

O Governo, liderado por Luís Montenegro, teve a audaz ideia de, face à morte do Papa Francisco e consequente declaração de luto nacional, recusar-se a participar nas celebrações do 25 de Abril. Esta decisão revela um profundo desrespeito do que foi a Revolução, desvalorizando o momento em que o povo, em conjunto com os militares, conseguiram a Liberdade para Portugal.

É sabido que certas forças políticas fizeram parte dos perdedores de Abril - os que se aproveitavam de um regime corrupto para explorar o povo trabalhador, enquanto juravam estar a proteger a Pátria com isso. Ou os bufos da PIDE, tão bem mandados para cumprir o serviço e denunciar quem não fosse como eles. Bom, não faltam exemplos, como estes, daqueles que, com a Revolução, perderam.

Aparentemente, as atuais lideranças de PSD e CDS também são alguns dos ressabiados de Abril. Havendo a oportunidade, afastaram-se da comemoração do 51º. Aniversário do 25 de Abril. Utilizar como pretexto o luto nacional, anunciado pela morte do Papa, é puro oportunismo e utilizar Francisco como um peão numa narrativa profundamente reacionária.

Francisco destacou-se, enquanto Papa, pelo seu humanismo e procura pela integração de todas as pessoas. Um pontificado que Francisco quis que fosse de “todos, todos, todos”, com vários avanços na transformação da Igreja. Marcado pelo seu progressismo, Francisco optou por, ao contrário de anteriores papados conservadores, abrir a Igreja, combatendo vícios instalados. Esta mudança representa uma das principais características do que foi a governação do Papa Francisco, durante os cerca de 12 anos que ocupou esta posição.

Face a tudo isto, atrevo-me a perguntar: quereria o Papa Francisco que não celebrássemos o 25 de Abril? Duvido muito.

Francisco deixou-nos muitas lições e motivos de reflexão. Da luta pelo meio-ambiente ao combate à intolerância e à discriminação, passando pela igualdade entre povos e pessoas, até à defesa da autodeterminação da população de Gaza e respetivo apelo ao fim do genocídio, Francisco foi exemplar. A sua atitude revela, acima de tudo, alguém humilde e altruísta, que procurou exercer influência pelos valores em que acreditava: o bem-comum, a solidariedade, a tolerância e a igualdade. Tudo princípios que Abril nos trouxe.

Luís Montenegro, e restantes perdedores, assumiram uma atitude vergonhosa. Mas não é por não comemorarem Abril que o povo deixou de sair à rua, ou que as pessoas esquecem o legado da Revolução. Em 1974, lutou-se por um Portugal de “todos, todos, todos”. É tempo de concretizar isso mesmo.

Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 1 de maio de 2025

Sobre o/a autor(a)

Miguel Martins

Sociólogo. Mestrando em Geografia na Universidade do Minho. Deputado municipal do Bloco de Esquerda em Barcelos
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