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Por quem os sinos dobram ou por quem dobram os sinos?

No espaço de algumas horas, os sinos tocaram a rebate três vezes. Em Mafra, há sinos dos carrilhões que ameaçam cair. Isto não é normal!

Já não bastavam, para nossa intranquilidade e insegurança, todas as lutas sociais reveladoras duma enorme insatisfação popular pelas condições de trabalho, pela injustiça que o valor dos vencimentos revela, pelas diferenças de tratamento consoante o género, pela inexistência de uma relação de trabalho alcandorada em contratos que defendam os direitos dos trabalhadores; não chegava a intranquilidade e o alarme público que a direita, insidiosamente, vai alimentando venha ela de relatórios oficiais mal digeridos (propositadamente) ou seja ela veiculada por órgãos de informação cuja qualidade se pode sempre classificar de negativa.

É tudo frágil, olhamos e ouvimos, tudo tão frágil que se esboroa ao primeiro apertão

No espaço de algumas horas, os sinos tocaram a rebate três vezes. Em Mafra, há sinos dos carrilhões que ameaçam cair. Isto não é normal! Que eles já não tocavam (ou apenas às vezes), era do domínio público, mas cair?! Um sino daqueles pode pesar até doze toneladas (o que é isso?) declarou um responsável. A Câmara de Mafra, a pedido da Direcção-Geral do Património, delimitou uma zona de segurança, mas se cair um sininho, bom, provocará seguramente uma espécie de tremor de terra que talvez ultrapasse o perímetro de segurança. Lá das alturas, pum, num ápice cá em baixo. Inacreditável que se possa equacionar a hipótese, inconcebível que os responsáveis falem disto como se fora a queda de um sino decorativo da árvore de Natal. Tudo em atitude zen para não alarmar, a insustentável leveza dos sininhos. A responsável é a mesma dos jantares nos espaços patrimoniais e do muro de betão (cujas verduras apenas fantasiam o cinzento) em frente do Mosteiro da Batalha. Dois mimos, como sabemos, dois verdadeiros certificados sobre a política patrimonial atestando a incompetência de quem dirige. Se os defensores do património são estes, o Sr. Ministro não precisa mesmo de mais inimigos. Tudo natural diz a dirigente, tomam-se alguns cuidados e, pronto, o caso não deve piorar. Acrescenta ainda, numa tática muito conhecida, que a culpa é de quem ainda não autorizou a obra (resta saber quantas vezes, e com que argumentos e veemência, interpelou a dita dirigente o Tribunal de Contas a exigir o andamento do processo… aceitam-se apostas!). Não sei se os sinos cairão, ou não, mas a dirigente deveria, ela sim, cair. Reincidências desta gravidade não se aceitam ainda por cima quando fala destas situações com naturalidade encenada. Portanto, muita atenção, que lá para as bandas do vetusto Convento de Mafra, os sinos podem ganhar vida. Jingle bells, jingle bells, jingle all the way!

A Torre de Belém também veio à baila. Outra vez o património, coitado. Desta vez terá sido o temporal que partiu vidraças e danificou o passadiço em madeira que dá acesso à Torre. Maldita sorte, nem a Torre escapa. Vamos ver quanto tempo a Torre ficará inacessível. Em substituição desta visita, não aconselho o monumento contemporâneo uns metros adiante sem nenhum valor artístico. De património, nem o cheiro. O temporal não o afetou? Grande pena!

O alarme público não seria muito se ficasse por aqui. Não, agora a coisa é mais séria porque se fala da Ponte 25 de Abril. As notícias saíram, a direita pede explicações num tom de quem não pode perder pitada, as pessoas interrogam-se sobre a segurança que a Ponte oferece. Fissuras na estrutura, verdade? Mentira? As Finanças dizem que não, não há pedidos para projetos, serão cerca de 18 milhões de euros, valor a revelar que o problema não pode ter aparecido de um dia para o outro, claro. Em que ficamos, de que tamanho são as fissuras, o concurso público é complexo (vai ser lançado diz o Governo), então, não será urgente concluímos, mas sim de manutenção. Tudo temperado com a intervenção presidencial cuja falta (!) já se sentia. Certamente que o comentário do Presidente da República sobre a intervenção que “mais vale tarde do que nunca”, é extemporânea. Como se diria coloquialmente, “não carecia”.

É tudo frágil, olhamos e ouvimos, tudo tão frágil que se esboroa ao primeiro apertão. Se se trata de precários, o parlamento aprova e o Governo aplica timidamente permitindo mesmo que haja quem não aplique (como nas Universidades); quando se trata das pensões, anunciam-se determinadas correções que para muitos são incompreensíveis levantando muitas dúvidas e insatisfação; quando se fala dos despejos, os problemas da gentrificação nascem na calçada que vê partir os mais frágeis; quanto à exploração petrolífera, sonhámos com um mar azul, mas afinal onde ficou a nossa expectativa? Esta fragilidade e esta incoerência provocam muitas perguntas. Empurrados por elas, convergiremos numa plataforma mais alargada e mais firme para afastar estes escolhos. Vamos lá, embora então, dar outra demão, robustecer o que estamos a construir.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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